domingo, 15 de dezembro de 2013


Imagine o leitor uma sociedade avançada que criou uma tecnologia para registo de imagens pouco dispendiosa, simples e portátil. Através de um sistema de lentes e diafragma estes aparelhos regulam a passagem de luz para um sensor eléctrico, onde é convertida em informação binária. Esta informação  pode ser comodamente transferida para sofisticadas máquinas descodificadoras que surgiram décadas antes e que vêm gozando de uma evolução exponencial. Interagem com o utilizador através de um ecrã e de um teclado, estreando constantemente meios de interacção mais directos. Permitem fazer quase tudo; para além de manipularem e guardarem as imagens digitais produzem e editam texto, vídeo e som.
Esta sociedade, industriosa que é, desenvolveu uma teia de telecomunicação mundial que permeia milhões destas máquinas com imensuráveis volumes de informação. Para além de constituir uma poderosa ferramenta de trabalho é um extraordinário veículo de cultura, ciência e educação. Também disponibiliza imagens de pipis, o que lhe cimenta definitivamente a popularidade. Foi nesta vasta teia que surgiram recentemente redes de natureza social, onde os participantes registam episódios do seu dia a dia.
Numa observação superficial tudo é belo. As imagens são, afinal, informação preciosa que pode chegar rápida e comodamente a qualquer lado. Mas algo invisível tem vindo a instalar-se entre os homens e mulheres desta terra.
Começou na ideia, compreensivelmente sedutora, da eternidade: captar o momento presente prendendo-o em pixels, armazenando-o numa directoria, mantendo-o vivo e sempre à mão. De forma simples e barata. Na consciência dolorosa da finitude humana representou um conforto até então inexistente.
Não se esperava certamente a perda de controlo que se seguiu. Do apontamento parcimonioso das férias, celebrações e acontecimentos relevantes esta sociedade passou para o registo acéfalo de tudo o que há de mais banal e desinteressante. O cuidado na composição da imagem (impressão digital do artista) desapareceu e a quantidade substituiu a qualidade. Ficaram reféns as memórias sob forma de zeros e uns e divorciou-se o homem do acontecimento. O que se perdeu foi a tríade definidora da natureza humana: a experiência tornou-se desatenta, a análise inexistente e a memória remota, armazenada algures num conjunto de bits. As mentes tornaram-se saltitantes e caóticas - afinal para reter deixou de ser necessária atenção - e a reflexão cuidada e profunda, quando sobrevive, foi relegada para os raros locais apartados da tecnologia, normalmente a banheira e a sanita.
No meio deste descontrolo colectivo encontraram terreno particularmente fértil as almas mais mesquinhas. Do palanque das redes sociais dedicaram-se à construção de mundos perfeitos onde o extraordinário é apresentado como ordinário e o gesto estudado como momento espontâneo.  Vivem o sonho molhado de qualquer narcísico: o reforço da sua superioridade (vivem  - e publicam - experiências que não estão ao alcance dos outros) e a perpetuação da sua vaidade (uma boa parte do tempo é passada a envernizar estes mundos falsos).
Desculpe-me o leitor a distopia, felizmente umbrática, mas há dias em que me dá para aqui.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013


Querida família,
estou quase com nove meses e queria dizer-vos que descobri um novo mundo. Agora já sou crescido e por isso deixei-me de mamas... A minha mãe deu-me um leite diferente de que não gostei nada mas agora já gosto. Como muito bem a sopa, porque eles dizem que faz bem e me faz crescer. Já experimentei coisas novas e até já me deram pão, que eu aproveito para massajar os dentes.
Mas o mais giro é que já me sento sozinho e quando apanho os meus pais distraídos gatinho pela casa toda. Comecei a gatinhar de marcha atrás mas agora já sei ir para a frente. A minha mãe está sempre a insistir para eu bater palmas, porque uma menina filha de uma amiga que tem menos dois meses que eu já bate palminhas, mas eu vou bater palmas quando eu quiser.
Estou cheio de vontade de falar com os meus pais, mas só sai uma chuva de cuspe...
Ah e continuo a adorar a hora do banho com o meu pai.
Muitos beijnhos e abraços.
Santiago
 
 
 
Querido Santiago,
Assim mesmo é que é, já é altura de deixares as mamas. Não penses é que é viagem sem regresso, que garanto-te que vais voltar a elas um dia mais tarde. Já a sopinha é a base duma dieta equilibrada - o que é argumento irrefutável, estejas na segunda classe com a roda dos alimentos ou em bioquímica a fixar compostos. Além do mais é uma maravilha para quando um gajo vive sozinho, ou como no meu caso com dois mamíferos cuja noção de haute-cuisine é 'descongelar uma pizza'.
Pumba a afinar essas vias córtico-medulares desde cachopo! E aprender a andar para a frente só depois de dominada a marcha atrás sempre é melhor agora do que daqui a dezoito anos com um instrutor de condução a urinar-se em pânico ao teu lado. Não é tem tanta piada, claro.
Se querem ver-te a fazer macacadas cobra bilhete. Não te deixes enrolar pá.
Quanto à chuva de cuspe guarda-a no repertório que quando estiveres a ser multado daqui a uns anos vai ser-te útil no diálogo com o senhor agente da autoridade.
Ah e no futuro vais achar muito mais piada à hora do banho noutras companhias... holandesas, fica a sugestão.
Grande abraço,
teu primo J.

sábado, 23 de novembro de 2013


Diz que hoje aconteceu uma coisa gira. Cheia de moral e assim. Aposto que o La Fontaine já fabulou sobre isto.
Ia eu no calhambeque, todo cumpridor do código da estrada, quando tive de parar num sinal vermelho. Aproveitei a oportunidade para oscular repenicadamente a minha senhora. O que eu fui fazer... O gesto enfureceu o senhor que seguia atrás de mim. Cegou-o de fúria. A partir desse instante passou a ser um homem numa missão. Como a zona era antiga, por isso de ruas estreitas e em mau estado, não lhe restou outra opção senão seguir-me até ter espaço para me tomar a dianteira. Fê-lo à distância - não regulamentar, parece-me - de sete centímetros. Seguíamos em alegre comboio, o senhor, eu e os quatro veículos à minha frente, quando a faixa alargou finalmente para uma espécie de berma; foi então que encontrou a oportunidade tão esperada: acelerou ruidosamente e encaixou-se entre o meu carro e a carrinha de caixa aberta que seguia à minha frente. Olhou para o retrovisor com um sorriso de triunfo e deu um toque no travão, brincalhão que era. Nesse instante a carrinha passou num buraco, soltou o ferrolho da porta da caixa e descarregou-lhe num divertido estrondo duas bilhas de gás no capot.
Estive para lhe perguntar se precisava de ajuda mas a duzentos metros havia outro semáforo e a minha senhora deve ser osculada de cinco em cinco minutos. Caso contrário falece um pinguim, e eu gosto à brava de pinguins.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

 
A chegada do inverno acorda os mais variados humores. Há quem lamente o fim dos dias longos de calor, há quem antecipe o Natal e os reencontros da época, há quem se anime com o frio e as oportunidades que este traz, quer de intimidade quentinha quer de criatividade sartorial.
Para mim, a chegada do inverno significa o regresso dos anúncios ao Ferrero Rocher. E o regresso dos anúncios ao Ferrero Rocher aquece-me a alma. O requinte muito anos oitenta traz-me de novo as férias de Natal da escola primária, as manhãs passadas dentro do saco-cama na brincadeira e os almoços em casa da avó com cheirinho a advento. A graciosidade da senhora do Rolls Royce é a saborosa consciência dum mundo de prosperidade e dolce vita e a lealdade incondicional do Ambrósio conforta como a companhia de um velho amigo.
Num mundo imprevisível, um café com um Ferrero Rocher no conforto duma casa inundada pelo sol de inverno faz maravilhas.

terça-feira, 12 de novembro de 2013


lit.

Meteu-se no elevador absorto, o edifício que descia a hipnotizá-lo. Ou era ele que subia. A julgar pelo ânimo era o mundo que passava, ele quieto. Parede, porta, parede, porta, parede, porta, parede, a porta.
Atravessou com fome o corredor até ao número 43, deixou a máscara e entrou no silêncio da casa.
Fixou-se no reflexo à janela enquanto fazia o jantar, duas latas de atum à espera num prato enquanto o ovo cozia. Mas não encontrou um homem. Não um, uno; um como em três terços, oito oitavos, treze treze avos.
Jantou ausente, levantou a mesa numa coreografia maquinal e lavou a louça em crescente astenia, na desconstrução violenta de quem se percebe fracção.
Não se recorda se lavou os dentes, nem se tomou os comprimidos.
Mas lembra-se de adormecer na certeza de que viver por viver tivesse sido em verdade consigo. Pudesse a brevidade do Acto ter encorajado urgência em ser autêntico. Talvez então não se tivesse vendido até não se reconhecer mais num reflexo. Talvez hoje fosse um, inteiro. Talvez.
Talvez o arrependimento fosse, ainda a tempo, o primeiro passo noutra direcção.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013


Muita coisa fascinante pode acontecer num provador de roupa. Estava entretido num cubículo espelhado a provar umas luvas e um gorro (sempre que tenho a oportunidade de me pôr todo nu da cintura para baixo aproveito-a) quando me sobressaltou a invasão do cubículo contíguo por uma horda de adolescentes. Pela comoção imaginei cerca de vinte, percebi depois que eram quatro. Entregaram-se a um diálogo vazio acerca de coisa nenhuma. Subscrevendo aquele contrato social em que nos subvalorizamos só para que nos contradigam, a adolescente mais estridente queixava-se de como determinadas calças número trinta e oito empacotavam mal a sua gordura horrorosa; as outras garantiam-lhe que tinha um corpo excelente, tomaram elas. Voltou à pesca de elogios mais duas vezes, com sucesso. À terceira investida a única que ainda não tinha falado diz-lhe
Ó Sara, pensa na quantidade de gente ainda mais gorda e feia que tu - é apenas uma questão de perspectiva.
A seguir a um s...s...sim hesitante, quase afónico, devem ter decidido que afinal não precisavam de roupa, porque sairam rapidamente e em silêncio.
Não sei o que é mais notável neste extraordinário episódio, se a fleuma com que a moça estraçalha a amiga se a esperança que nos traz gente desta que desde pequena se recusa a compactuar com personalidades histriónicas.
Recordou-me um momento de semelhante gáudio que vivi aqui há uns anos. Nas auto avaliações de final de período uma colega adepta do mesmo tipo de pesca subavaliou-se desavergonhadamente. Os professores reagiam normalmente com espanto, convencendo-a do seu valor e mestria, ela mostrava-se desconfortável com a honra mas acabava por aceitar a nota e andávamos nesta farsa em sete disciplinas três vezes por ano. Não nesta ocasião. Ao avaliar-se em quinze valores, quando merecia dezassete, a professora registou calmamente a nota no livro de ponto e seguiu para o nome seguinte. A absoluta indiferença aos joguinhos de aprovação foi um momento épico. E ainda beneficiámos a longo prazo do facto da pequena ter parado com as palermices e passado a auto avaliar-se como deve ser.

domingo, 3 de novembro de 2013

quinta-feira, 31 de outubro de 2013


lit.

Não eram ainda sete horas quando estacionou a carrinha e já a noite se instalava. Havia duas semanas que não se dava pelo sol e o ar húmido entrava agreste em todo o lado, o que tornava difícil manter o ânimo, especialmente para quem andava boa parte do dia na rua.
Foi de espírito pesado que desligou o motor e ficou à espera, de mãos debaixo das coxas. Pesava-lhe o cansaço de uma semana de trabalho nem sempre estimulante e quase sempre mal pago. Se o horário relativamente fixo lhe trazia uma previsibilidade bem vinda estes casos especiais não tinham propriamente hora marcada e costumavam intrometer-se-lhe na noite. Numa sexta feira de chuva a comissão era parca compensação pelo adiar do jantar.
Não teve de esperar muito pela chegada do chefe e do colega. O primeiro tratava-o com um paternalismo desconfortável; gostava de lhe lembrar, nem sempre com subtileza, que a sua contratação fora um favor de grande generosidade em honra do pai e que nos tempos que correm uma oportunidade daquelas era um privilégio. O segundo, com quem fazia a maior parte do trabalho de terreno, era do tipo reservado, de tal maneira neutro que nunca sabia que assunto puxar quando estavam juntos. A maioria das vezes trabalhavam em silêncio, o que não o desagradava propriamente.
Esperaram que o portão de ferro abrisse e ouviu o areão estalar debaixo dos pneus. A consciência daquela riqueza alheia não estava propriamente a animá-lo. Foi a sobrinha da falecida que os recebeu, uma mulher na casa dos setenta, e que os conduziu ao salão e ao espólio: os quadros em cavaletes dispostos em semi-círculo e as esculturas em cima de duas mesas grandes ao centro.
Tivemos pouco tempo de preparação, algumas coisas ainda estão como a minha tia as deixou. Mas penso que assim serve...?
Perfeitamente. A generosidade da sua tia deixa-nos a todos muito felizes.
Uma herança daquelas representava um acréscimo de valor considerável à actual colecção e não passaria certamente despercebido aos proprietários do museu que fora o chefe a conseguir aquele acordo. Havia razão para estar feliz.
Enquanto este e o colega faziam uma análise rápida aos quadros deteve-se à entrada da sala. A foto duma mulher de alguma idade, alta e magra, de sorriso aberto e olhos claros tinha lugar de destaque por cima do piano. O tecto branco, alto, trabalhado nos cantos num relevo complexo continuava a sensação de luz das paredes claras. A temática roxa e bege da decoração e o cheiro a madeira tratada faziam do espaço um reduto feminino; a preferência pelo metal escovado, nas molduras, nos candeeiros e nos vasos rematava uma experiência estética anacrónica mas curiosamente cativante.
Enquanto esperamos a chegada do advogado, o Dr. Gouveia, posso mostrar-vos a escultura que não está incluída no testamento. Mantivemo-la no atelier, por causa do peso. Eu levo-os até lá - temos é de levar guarda-chuva...
Um corredor comprido, onde abriam vários quartos e salas, dava acesso ao jardim. Atravessaram-no em passo rápido e subiram os três degraus de acesso ao atelier, uma construção de porta e paredes de vidro temperado, com um alpendre largo ladeado por vasos de pedra.
Já começámos a empacotar as coisas, receio que esteja um bocadinho atravancado. Aproveito e dou um salto à cozinha, deixo-os à vontade. Depois podemos esperar na sala com um chá e umas bolachinhas.
Com a permissão do chefe acendeu um cigarro e ficou à porta; viu-o contornar com o colega um conjunto de embrulhos e malas dispostos em desarmonia. O ambiente caótico de fim de festa contrastava com a serenidade e a elegância do resto da casa. Ao lado da porta alinhavam-se cinco caixas identificadas como Pintura. Reparou numa mão cheia de fotografias antigas, no cimo da primeira, amarelecidas pelos anos. A fotografia do topo prendeu-lhe a atenção por reconhecer de imediato o recorte do Matterhorn.  No meio de um grupo de oito pessoas, sentada ao comando de uma moto com sidecar, olhava em frente com sorriso aberto uma mulher jovem e magra, de olhos claros; o homem agachado no sidecar ao seu lado fitava-a com um sorriso gaiato. O colega chamara entretanto a atenção do chefe para um gira-discos ao lado da escultura, com um vinil ainda assente no prato. O chefe ligou-o à tomada e depois de verificar a agulha baixou o braço. À porta do atelier, sentiu-se inesperadamente leve. Talvez pela promessa de um chá quente, talvez pelo piano de Thelonious Monk, talvez por outra coisa qualquer. Fumou o resto do cigarro na confortável sensação de que a noite de trabalho ia custar menos do que prometera.

sábado, 26 de outubro de 2013

Opus 23

Num bloqueio turvo, semblante tolinho,
Permaneces sentada com as calças no chão
Pois sem papel higiénico à mão
Como havias tu de limpar o rabinho?

Dez maços de lenços na prateleira em frente
Dariam resposta adequada, pois é -
Não fosse um simples exercício à mente
Atirar-te bem longe para fora de pé.

Num primeiro embate com o teu nevoeiro
Pensamos ser só humor pouco usual
Mas logo se expõe um terreno avesseiro
Tão estéril de vida que não parece real.

Na apreensão típica dos confusos
Destilas conflito por todo o lado;
Sozinha retrais-te à enleada inacção
Naquele fácies bem toleirão
Tão próprio de alguns tipos de gado.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013


A Estética tem sido importunada numa base diária e ninguém se levanta em sua defesa. O culpado é, naturalmente, o actual fetiche masculino com relógios de punho colossais. Parece nem interessar se custam trezentos euros ou trinta mil. Entendo que o homem moderno, tendo trocado a caça e a defesa pelo tablet 4G e o macchiato de avelã, procure balançar esta mariquice com símbolos viris. E nem vou encetar considerações freudianas acerca desta fixação compensatória com o tamanho. Mas um relógio da dimensão dum pires não traz à mente poder ou força, traz à mente o Batatinha. Trinta e seis milímetros de caixa chegam, a sério.

sábado, 19 de outubro de 2013


Foi durante a cavaqueira pós prandial com a minha senhora, enquanto entretíamos questões menores, que se consubstanciou nos nossos espíritos incrédulos algo de extraordinário relevo. Um quesito que sumula, caro leitor, boa parte das grandes questões com que alguma vez se debateu; que levanta, de imediato, outras tantas para reflexão futura. Não há que temer o assombro duma grande ideia ou hesitar no elogio em boca própria: trata-se, admitamo-lo, da síntese das considerações ocidentais dos últimos quinhentos anos. Se não está sentado sente-se.
Aqui vai: porque é que vender o pipi* na sétima arte carrega maior estigma do que vender a ética no dia a dia?
Experimente dizer em qualquer fórum social que é actor na indústria pornográfica. Analise a recepção. Garantidamente pouco empática, seja homem ou mulher. Olhá-lo-ão com repulsa, desdém ou inconfessa predação. Tudo pouco agradável. Experimente agora apresentar-se como economista teórico responsável por uma coluna de opinião. Omita, para o efeito, a quantidade incalculável de vezes em que a realidade, essa marota, desdisse o autismo da sua análise "científica". Ou refira a sua paixão pelo Direito e a carreira que construiu na advocacia. Omita, para o efeito, a chusma de degenerados sem qualquer esperança de redenção que defendeu ao longo dos anos. Ou partilhe o seu trajecto político de luta desde as baixas camadas partidárias até à posição de influência que agora detém. Omita, para o efeito, o mar de demagogia em que vive desde que se lembra de ser gente. Ou recorde as férias em que conheceu o seu cônjuge e o projecto a dois que daí resultou. Omita, para o efeito, que a estima que lhe tem é toda na medida da sua conta bancária. Encontrará na plateia reacções díspares, certamente, mas duvido que o brindem com o repúdio reservado aos que passam os dias a suar de gatas. E no entanto não escasseiam virtudes a esta desqualificada carreira. Senão debrucemo-nos. O objecto artístico, o sexo, é algo que todos são capazes de apreciar - grande parte da população investe nele uma boa parcela das suas vidas e os que não o fazem dão certamente espectadores entusiastas. É uma carreira que pugna pela boa saúde: o praticante tem de manter uma forma física invejável, quer no tónus quer na estamina, e faz mais despistes médicos do que qualquer outra alma, mesmo a que pratica tanto ou mais. E é uma escolha sensata não só em termos financeiros - vive melhor do que a média da população - como em termos humanos - conhece constantemente gente nova.
Urge uma resposta capaz de interpretar a razão de ser desta injustiça. Tenho pronta uma bonita recompensa: um conjunto de três VHS de muito bom cinema. Não precisam de recear o estigma: o rótulo diz "Jogos Olímpicos Sidney - atletismo".

*quem diz pipi diz naturalmente pilinha.

sábado, 12 de outubro de 2013


Acredito na discussão de ideias como um dos exercícios mais nobres a que o Homem se entrega. Acredito também que o debate teórico de ciência, de arte, da História pode ser um fim em si mesmo. Não vejo que a circunscrição ao plano abstracto limite minimamente a validade do discutido. Mas não deverá aquilo que nos incomoda passar do plano abstrato? Não teremos nós a responsabilidade de agir de acordo com a homilía que pregamos, legitimidade oblige? O potencial que as ideias encerram é isso, potencial. A realidade não se altera à força de teses.
O status quo é uma merda. É uma merda a falta de emprego e a precariedade do que encontramos, é uma merda o volume de impostos sem destino útil, é uma merda o caciquismo e o compadrio, uma merda a burocracia estatal, uma merda a dependência europeia...
Certo. E então?
Diagnosticava uma eminente figura aqui há uns dias uma eterna fonte de descontentamento de que todos somos obrigados a beber, por imposição de uma força malévola externa. Não percebi bem que força - se o governo, se a época, se os deuses do Olimpo. Enfim, discordo em absoluto. Não somos obrigados a nada. Épocas houve em que a falta de liberdade individual nos condenava a uma vida difícil, não poucas vezes miserável e insalubre. Poucos conseguimos imaginar como as sociedades pré-iluministas desconsideravam o cidadão anónimo e o acorrentavam a uma máquina supersticiosa, intolerante e retrógrada. A pena de morte era normalmente um dissuasor eficaz de veleidades individualistas ou contestatárias.  Nem nas suas divagações mais selvagens os ricos do passado sonhariam com a abundância e a conveniência das ferramentas de que hoje dispomos. Vivemos com muito mais do que alguma vez os nossos antepassados viveram. E no entanto uma percentagem considerável da população escolhe não fazer uso pleno da liberdade de que hoje goza.
Podemos secar a fonte do nosso descontentamento, sim. Vejo três opções proactivas.
Posso secá-la comprometendo-me a mudar qualquer coisa. Por mim e pelos outros. Penso e discuto o problema, tomo um banhinho e saio de casa. Interajo, oponho-me, convenço, não convenço, dou, levo. Arrisco. Inscrevo-me n(um)a luta.
Também posso secá-la saindo da fila, vivendo em paralelo. Dentro da legalidade (e quantos percursos alternativos cabem dentro da lei) ou mesmo fora dela. Arrisco. Um dia, eventualmente, a realidade que me incomodava - a dos outros - deixou de ser a minha.
Posso ainda secá-la emigrando. É um modo de sair desta fila; se a nova em que me inscrevo é melhor ou não é outra questão. Arrisco. O passo foi dado, a acção concretizou-se.
Há, claro, uma outra opção, reactiva, que não seca fonte nenhuma. Escolho uma vida de rabugice constante e amarga; na frustração das minhas expectativas escolho não agir. Parece ser uma opção popular. Reclamo que me farto, denuncio inflamadamente, convencido de que o queixume é a única hipótese que me resta. E se não produzo manifestos difundo os alheios, que é uma forma ainda mais fácil de estar. Coroo de razão quem diagnostica, quem reclama, do conforto cobarde da minha inacção.
A proactividade exige coragem; viver barafustando - ou dando razão a quem barafusta - nem por isso. Um desabafo é um desabafo, mas por qualquer motivo obscuro passámos a premiar a lamúria académica, virou modo de vida. Trocar a única ferramenta de mudança - a acção - pela admiração alheia de um punhado de diagnósticos contundentes é um bocado vergonhoso.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013


lit.

A casa é decadente. Pretéritos de classe por todo o lado, na farda do empregado, na tela a óleo, nas senhoras viúvas dos senhores diplomatas. Anacrónica, pastelaria imensa, imersa no aroma a café e a jornal. Uma delícia.
Num passo com propósito, a desafiar a idade, sentaram-se com um rosé e uma cataplana de marisco quatro senhoras sem um vinco, cabelo armado, altas no porte e no espírito.

Não decidiu foi o que fazer aos livros e às garrafas que ele lhe deixou. São às centenas, valem de certeza uma nota.
Não me parece que vá precisar de dinheiro tão cedo.
Não é pelo dinheiro é pelo juízo. Livra-se daquilo tudo, deixa uma garrafa de lado, brinda a si própria e fecha o capítulo. Não é como se ele fosse voltar.
Porque é que não leva as coisas para uma das casas dela?
Está lá com tempo para mudanças! Além do mais está a vender a quinta, que sempre é onde tem mais espaço, e os dois apartamentos que comprou aqui não guardam tanta coisa. Com o cá e lá mais as filhas e Milão não se senta o suficiente para aquecer a cadeira.

Uma das quatro, de óculos descaídos no nariz, permanecia calada. A tenaz da sapateira rivalizava-lhe a atenção. Levantava amiúde os olhos do prato, num aceno genuíno, participativo, para retomar de imediato a operação delicada.

No que ele havia de se meter, o raio do homem. A Alda bem me disse o Antunes saiu da reforma. Há coisa de três meses vi-o no Chiado, até contei à Rita. Impecável, de fatinho de três peças, cheirou-me logo a esturro. Claro que me convidou para almoçar. Claro que lhe disse que não, naturalmente, é preciso lata.
Meia hora depois não estavam a dividir um Montrachet?
É o Antunes, enfim...
Ele repartiu as coisas pelos Branquinhos? As de Lisboa?
Sim, vendeu tudo e o que não vendeu arrendou. Depois entregou-lhes o dinheiro. O resto doou aos miúdos e aos dois centros. Se bem o conheço, e acho que conheço, não deixou nada desatado.

Pediram outro rosé. O café tinha enchido com um grupo de reformados bonacheirões, estrangeiros, que pelo aspecto afogueado vinham fugidos da chuva. O ruído branco das conversas e talheres subiu um nível. A tenaz dera lugar a uma das patinhas mais pequenas e ai dela se o bicho achava que a vencia. As amigas bebericavam pensativamente o vinho. Baixaram o tom e aproximaram as cabeças.

Não é como em oitenta e seis, pois não?
Não me parece. Quer dizer, como é que alguém consegue lá chegar?
Não consegue. Se fizermos a nossa parte, não consegue. Uma vez por ano sabemos qualquer coisa e é isso. Não há desculpas. Certo?

A sapateira perdera claramente o encanto. Olhou por cima dos óculos, inspirou um sorriso triste e só parte dela regressou ao prato.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013


Veio a agricultura no vale do Tigre e do Eufrates. Vieram os Fenícios com o comércio internacional. Vieram os Gregos com a filosofia e os Romanos com o império. Veio o Renascimento com a beleza e a Idade Contemporânea com o progresso. Depois vieram os anúncios ao Cillit Bang. Algo aqui não correu bem.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013


Pode parecer desnecessariamente desanimador mas é na verdade o oposto. Afastar os olhinhos do microscópio e chegar a cabeça atrás - readquirir a noção de escala - faz maravilhas pela nossa sanidade. Tropeçarmos periodicamente na nossa verdadeira dimensão tem o condão de nos colocar de novo no lugar. É uma viagem breve a que fazemos aqui. Talvez por isso o fascínio fácil com paisagens imensas. Ou com a entropia de um conjunto de ruínas, no jeito tranquilo de um eco.
Nós pequenos; tudo o que nos rodeia imensurável, eterno. Não vamos ao comando de coisa nenhuma. Há algo nisto de incrivelmente libertador.

sábado, 31 de agosto de 2013


A propósito da facilidade em ganhar um prémio que se veja no Euromilhões ouvi de passagem que probabilidades de meio por cento nem contam. Discordo. Meio por cento não é despiciendo. Meio por cento tem peso. Meio por cento faz toda a diferença. A actual chanceler alemã e a menina que mia no videoclip do tema Blurred Lines diferem somente 0,1% a nível genómico. Digam lá outra vez que meio por cento não conta.
Exacto.

terça-feira, 27 de agosto de 2013


O Remy, porque é rato, morrerá muito antes do Linguini.
É uma ideia que desconcerta.

domingo, 25 de agosto de 2013

 
O ser humano tem um potencial extraordinário. Ao pequeno almoço de hoje o Sceptical Essays do Bertrand Russell brindou-me com esta prosa:
 
I wish to propose for the reader's favourable consideration a doctrine which may, I fear, appear wildly paradoxical and subversive. The doctrine in question is this: that it is undesirable to believe a proposition when there is no ground whatever for supposing it true.
 
É uma passagem dum livro gordo de sumo que ilustra na mouche o olhar crítico do autor perante a realidade. Observação, interpretação, conclusão. Livros que nos obrigam a pensar deviam ser obrigatórios na escola. Quão mais útil teria sido interpretar Russel no lugar de contar sílabas métricas em cantigas de amigo?
Saio eu deste banhinho reparador, enrijado e catita, para enfiar o pezinho em bosta. Da figurada, caro leitor. Fosse antes a literal. Essa, por desagradável que seja raspá-la das solas, é mister fisiológico. Parece que uma quantidade considerável de gente decidiu consagrar a trigésima quarta semana de dois mil e treze à mui produtiva discussão, na internet em geral e nas redes sociais em particular, acerca do alegado silicone que determinada actriz colocou nas nádegas e nas mamas. Os opinadores entrincheiraram-se dos dois lados da discussão, arremessando impropérios rasteirinhos. A visada abespinhiçou-se e veio a público mostrar, abespinhada, que não o estava. Críticos sociais e jornalistas tertuliaram acerca do problema com ar grave.
Demasiado de uma coisa boa enjoa, e como tal a vida brinda-nos com estes antónimos. É simpático da parte dela.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013


As ruas salpicadas de cafés e esplanadas, quando sai o sol, e os centros comerciais, doze meses por ano, são laboratórios sociológicos por excelência.
Constato uma certa tendência hodierna de passear na via pública em tronco nu. Normalmente mancebos a quem desponta o buço, embora não exclusivamente. É, contudo, o grupo maioritário. Partilho algumas das minhas notas de terreno de hoje.
 
Manhã soalheira de Agosto, vinte e oito graus centígrados, rua de comércio dum bairro lisboeta
 
Recolha |
O grupo é constituído por três jovens púberes. Dois deles em tronco nu, o terceiro com uma camisola de alças rasgada.
Tentam equilibrar nas coxas calções de ganga três números acima, com notória dificuldade  Esta acção impõe-lhes um andar coreico e exige o constante ajuste manual do cós. A região supra-púbica e sagrada espreita acima dos boxers, largos e de cores garridas.
Têm o ar levemente emaciado das crianças em acelerado crescimento epifisário, embora exibam o corpo com evidente orgulho. Tocam-se a si próprios várias vezes, maioritariamente no peito e nos braços.
Dois deles envergam bonés com a pala orientada para o lado direito, que ajeitam sempre que não estão a ajeitar os calções. Usam óculos de sol de cores primárias com lentes espelhadas e têm a cavalo no pescoço auscultadores da década de oitenta.
Falam alto, monitorizando constantemente o impacto que a sua presença está a ter nos demais transeuntes. Desrespeitam facilmente a ordem duma fila indiana (numa padaria, por exemplo) e praticam a insolência com evidente à-vontade. 
 
Interpretação |
A homogeneidade no vestuário e acessórios sugere uma assunção pública, descomplexada, do carinho que os une. Um ritual de comunhão, como o dos recém-casados que exibem orgulhosamente as alianças, símbolos da sua união.
A exposição dos grandes glúteos parece-me um sinal inequívoco de submissão, num curioso paralelo com a linguagem corporal canina.
As duas características supracitadas, somadas à ostentação do fenótipo desnudado, apontam para uma orientação homossexual de carácter passivo.
Toda esta extravagância comportamental indica baixa autoestima e fraca adequação à vida em sociedade, sugerindo valores de QI dois ou mais desvios padrão à esquerda da média numa distribuição gaussiana.

Já remeti esta douta análise ao Smithsonian.

domingo, 11 de agosto de 2013


A morte deixa um sabor a nada. A boca seca, a mente pára, a compreensão não compreende. Fica um vazio estúpido, um porquê sem resposta. É de um egoísmo grande: eu não volto a ver esta pessoa, eu não volto a ouvi-la, eu não volto a apreciá-la. Mas é assim. Quando alguém nos morre, leva-nos uma porrada de coisas.
Ontem morreu um homem muito bom. Não é por ter morrido que o digo. Disse-o antes. Felizmente também a ele, algumas vezes. Talvez pudesse ter dito mais. Partilhámos o palco; a excitação que antecede a entrada em cena - aquilo que leva tanta gente a ser actor -  aproxima-nos como poucas coisas. Porque então estamos nus, verdadeiramente nus, e aí conseguimos ver a verdade no outro. A verdade dele era ternura. Disponibilidade, respeito e lealdade. Um homem ainda novo, mas antigo nalgumas coisas. No respeito pelos outros, um espírito anacrónico.
Costumava dizer olá rapariga, viva rapaz, adeus rapariga.
Adeus rapaz... A quem é que eu me despeço de ti?

quinta-feira, 8 de agosto de 2013


Wonders of Life (Brian Cox, físico de partículas), What's Life (Erwin Schrödinger, físico) e Status Anxiety (Alain de Botton, filósofo): três livros que na minha história pessoal se juntaram numa salada particularmente estimulante, ponto de partida para um trajecto de considerações curioso. Achei interessante partilhá-lo. Se o leitor tiver algo de mais interessante para fazer, fique por aqui. Se for amante de um exerciciozinho teórico, ou insone, continue comigo.

Os três vectores directores da vida - a conservação (homeostase, metabolismo, crescimento), a adaptação a estímulos do meio e a propagação do material genético - são tão antigos quanto a própria vida em si (qualquer coisa como três mil e setecentos milhões de anos). Mesmo com o extraordinário desenvolvimento cerebral da nossa espécie, continuamos reféns absolutos.
Mas é por causa deste extraordinário desenvolvimento cerebral que a propagação do material genético adquire manifestações tão distintas. A pulsão milenar da reprodução é ubíqua mas metamorfoseou-se em dezenas de outras. Foi sempre uma competição: estamos programados para deixar a maior descendência possível e eliminar a alheia. Por isso deitamos mão aos melhores instrumentos com que a inteligência e a era nos brindam; instrumentos que nos distingam dos outros, que nos comprem atenção, reverência, aceitação - amor. Lutarmos por carreiras com destaque social e proveitos financeiros gordos é procurarmos uma posição melhor do que a do vizinho do lado. Almejar um carro melhor do que o desse vizinho é procurarmos chegar à frente na fila. Ou vestir roupa desta marca, passar férias naquele sítio, aparecer naqueloutra festa. Sempre meios, nunca fins em si mesmos.
 
Na nossa espécie a inteligência sobrepôs-se à força. Não sei se é uma estreia mas é certamente pouco frequente; ao longo da árvore filogenética a norma é outra. Tornámo-nos a única espécie do género Homo não pela força das fibras musculares mas pelo poder do córtex cerebral. A caminhada que iniciámos há cento e cinquenta mil anos foi a caminhada do intelecto. A capacidade de manipular o ambiente e os outros tornou-se a força definidora da posição social que ocupamos e o macho-alfa deixou de o ser por ser mais alto, mais forte ou mais rápido. Lidera quem tem o maior intelecto e o transmite pela acção - normalmente da palavra.
 
Isto é terreno fértil para a frustração. Se sou grande, forte, deveria ser um líder nato. É  o que acontece nas outras espécies. Porque é que sou subalterno? Porque é que sigo em vez de liderar? Calar o instinto primordial de tamanho-é-poder não é fácil.
A invenção setecentista da meritocracia também não ajuda, tão arreigada que está. Posso-ser-o-que-quiser. Com-trabalho-consigo-tudo. Toda-a-gente-pode-ser-líder. Lamentavelmente, não. Se fossemos todos líderes não restaria ninguém para liderarmos o que inauguraria, por si só, um paradoxo.

terça-feira, 30 de julho de 2013


Uma moça que emprateleira produtos no supermercado igual à Anne Hathaway.
A decisão de lhe perguntar a ela pelo que procurava.
A abordagem decidida, olhos nos olhos, "Boa tarde, sabe dizer-me onde estão os piaçabas?".
A imediata e dolorosa consciência de que perguntei "Boa tarde, sabe dizer-me onde estão os piaçabas?".
Não há maneira de fugir à repulsa pictórica dum piaçaba, meus amigos.

quinta-feira, 25 de julho de 2013


Reagiu hoje com um certo enfado paternalista um senhor ministro, recentemente empossado, a uma questão acerca do seu percurso profissional. A jornalista trouxe à baila - a marota - o facto deste ter sido presidente do conselho superior de uma holding proprietária dum banco que depois de anos de fraudes fiscais de toda a espécie foi nacionalizado pelo estado, com a injecção a fundo perdido da bonita quantia de quatro mil milhões de euros. Mas não é tudo mau: admitiu perante as câmaras ter a consciência totalmente tranquila. E pronto, está encerrada a questão. Agora adeus que se faz tarde e tenho o chofer à espera.
...
Nos últimos tempos o número de gente ministeriável e deputável a admitir consciência totalmente tranquila tem pululado com assinalável vigor.  O que brinda os telespectadores com momentos de refrescante espirituosidade: como se eu, gajo, declarasse solenemente ter o útero em perfeitas condições ou os ovários em excelente estado.

segunda-feira, 22 de julho de 2013


Elimine os pelos superfulos.
Alguns cartazes publicitários mereciam prémios. Fui a rir a viagem toda.

quinta-feira, 18 de julho de 2013


Hoje assisti de primeira plateia a um casal que se queixava para a televisão, um tanto choroso, da actual dificuldade em comprar a comida básica. As prioridades são o que são, cada um tem as suas e a hierarquia de um raramente coincide com a de outro. Verdade. Mas tendo a interpretar a falta de dinheiro para alimentação como o fim da linha. Quando o jornalista que recolhia o testemunho cavou um pouquinho mais, encontrou minhoca: são ambos fumadores (ele mais dum maço por dia, ela quase um). Cheira-me que é comportamento para orçar mensalmente nuns bons duzentos e cinquenta euros. Por cada palerma destes há outro que passa mesmo fome, mas a farsa dos primeiros acaba por legitimar para muitos a cultura de austeridade, o que é uma tristeza.

quinta-feira, 4 de julho de 2013


Há dias em que me cai em cima um estafa misantrópica dos diabos. Peço ao universo uma pausazinha de um dia ou dois, para arrebitar, mas o universo não me liga peva. E faz ele bem, mas que cansa cansa.
Devíamos ter uma semaninha por ano para sermos outra coisa que não Homo sapiens sapiens. À nossa escolha. Eu aproveitava a ocasião para ser Spheniscus demersus. Gosto à brava de pinguins.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

 
O sentido de humor.
É isso.
É no sentido de humor dos outros que lhes sopeso o valor. Que lhes tiro as medidas à sensibilidade, à inteligência e ao carácter.
Há quem se impressione com o poder. A mim seduz-me a capacidade de fazer rir, o espírito pontudo, a articulação irónica de um predicado. Por mais extensa a colecção de símbolos de status a que alguém se dedique, se não for mordaz não me impressiona.
Num homem é coisa para estimular uma tertúlia noite adentro. Com um tinto em copo de balão na esplanada dum hotel ou a virar Frisumo e bolachas numa estação de metro. Pouco importa. É um daqueles prazeres de difícil descrição.
Numa mulher é coisa para estimular uma tertúlia noite adentro. Mas logo algo mais. Algo mais profundo se inicia aí. O sentido de humor de uma mulher cai-me em cima como ao Bocage a boca, os olhos e as mamas da amada.
O humor é uma coisa plural que se farta. Tende a amarrar-me aquele que surge com sprezzatura, que não é baixo, que versa de forma desnecessariamente articulada uma trivialidade qualquer. O que carece de senso, sendo literário.
Como qualquer pirâmide de valores que reja a nossa apreciação do próximo a que corooa o sentido de humor é obviamente contestável, mas porventura preferível a uma que premeie símbolos de status mais mundanos, como a fama ou o dinheiro. A menos que esse dinheiro tenha comprado um Ford GT40 de 64; nesse caso o próximo é obviamente o maior e nada do que eu disse atrás se aplica.

terça-feira, 25 de junho de 2013





















 
Tenho tropeçado neste cartaz nos locais mais díspares. Ele é t-shirts, ele é redes sociais, ele é portas de discotecas. Impõe-se uma análise lógica: até que ponto um cartaz niilista não se esvazia a si próprio de natureza niilista? Não são uma definição e um símbolo (como as que esta composição apresenta) formas de Conhecimento?
Por norma deposito pouca confiança em definições copiadas do primeiro parágrafo dum artigo da Wikipedia. Neste caso dá-se o divertido paradoxo do significante se esbardalhar no significado, mas acredito que para a maioria a componente pictórica da coisa afaste considerações semióticas.

segunda-feira, 24 de junho de 2013


Hoje estive sozinho durante quarenta e dois minutos numa sala de espera a beber copinhos de contraste antes de entrar para uma TAC. A televisão em fundo passava um campeonato europeu de salto à corda. A meio da espera entrou na sala uma senhora enfermeira, abeirou-se da minha cadeira e depositou na mesinha ao lado um bonsai, uma tesoura e um transferidor. Não deu explicação, saiu e não regressou.
Acho que entrei sem querer num sonho do Lewis Carroll.

sábado, 22 de junho de 2013


Parece uma inevitabilidade em várias publicações (algumas delas hebdomadárias) perguntar a um entrevistado a sua maior virtude e o seu maior defeito. A pergunta tende a surgir no final da conversa, como se o dipolo sintetizasse aquilo em que ele ou ela se tornou. Tudo o que entremeou o primeiro cocó e o almoço daquele dia moldou um ser, obviamente digno da nossa atenção, que se polariza nessas duas qualidades. Esta mania, senhores, é mania que fede.

Começa na assunção de que o entrevistado é alguém de valor. Normalmente não é. Sócrates (o grego) disse um dia à hora do lanche que a fama é o perfume dos actos heróicos. Disse muito bem. Que a definição de acto heróico tenha deixado de ser o triunfo marítimo sobre o vizinho geográfico ou o domínio das ‘contendas atléticas - das que praticam os homens’ ou a aceitação estóica do capricho dos deuses parece-me pouco pertinente. É do contraste entre as duas escalas de valores que surge a perplexidade. A antiga eleva à fama os que se superaram, a si, às dificuldades; aqueles que malgradas as falhas pessoais acrescentaram valor só por terem sido; a hodierna promove a estultícia e o espalhafato. Não é isto uma fastfoodização transversal? Metemos à boca qualquer trampa porque é de acesso fácil e porque o palato está anestesiado; por coerência, lemos qualquer trampa porque está disponível em cada quiosque e porque a mente está anestesiada. É corolário que elevemos à fama qualquer trampa. É a fixação com o imediato. Queremos famosos insufláveis.

Longe de mim a apologia do herói. Seria insensato dar-lhes a exclusividade do meu respeito, quanto mais não fosse por preservação do meu amor-próprio. Sejam também todos os outros: os normais e os simples; os feios, os porcos, os maus. Um sincero hip hip hurra à diversidade! Só lamento que a fama não seja subproduto da excelência.

E depois vem a falsa modéstia.

Andar com rodriguinhos para assumir uma virtude é pateta. A única coisa que consegue é acrescentar aos possíveis defeitos a hipocrisia. Pior ainda é dar como defeito uma alegada qualidade. Ó para mim tão modesto ao admitir como maiores fraquezas o espírito de entrega e a integridade / Que acabo invariavelmente por ser desiludido ou ultrapassado / Que devia ser menos altruísta. Não, caro entrevistado companheiro amigo. Não. Essas não são as suas maiores fraquezas. Devia levar uma luvada no frontispício o meu amigo por dizer uma parvoíce dessas e o senhor jornalista por lha publicar. A sua maior fraqueza é, sei lá, a sua deficiente higiene pessoal. Ou o seu narcisismo galopante. Ou as suas insólitas parafilias. Ou a sua paranóia obsessiva-compulsiva de verificar sempre se trancou a porta do carro oito vezes enquanto recita os rios de Portugal e esfrega a nuca. Nem me parece que o condenassem se as eufemizasse um pouquinho; mas a recusa em identificar as suas fraquezas retira crédito às qualidades que possa vir a enunciar e aliena o leitor inteligente. Em contrapartida demonstra a esse leitor que a desonestidade é um defeito que o meu amigo cultiva diligentemente. Haja algo positivo no facto de ser palerma.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

| Dezanove de Junho do Ano da Graça de Dois Mil e Treze


Para começar, uma crítica.
Que é para começar bem. 
O vocábulo blog deixa muito a desejar. Soa a um tipo de nhanha viscosa que aderiu à faringe. Bem sei que resulta da contração de web log, mas é muito fraquinho. 
Posto isto, decidi inaugurar um.
Como o nome sugere, terá um pouco de tudo. Será assim um potpourri de reflexões diárias. Embora use expressões como potpourri, tentarei evitar mariquices. Palavra. Vou esforçar-me para que seja um blog à homem. Terá humor de luxo e terá desaguisados sérios com a vida. Indiscutíveis pérolas literárias alternadas com estupidez gratuita. Tudo conteúdo original, excepto indicação clara em contrário. E é capaz de haver vezes em que cai no incorrecto. Mas é grátis e não vos devo nada e se a ideia é afagar o espírito com coisinhas bonitas ide sentar-vos numa FNAC a papar Paulo Coelho. 
Quanto à periodicidade da coisa não contem propriamente com uma regularidade militar. Sou sul-europeu e como tal muito parco em disciplina; produzo quando me dá na telha. Procurarei, ainda assim, uma cadência média hebdomadária – sobretudo porque gosto muito de tudo o que é hebdomadário. Isto, claro, exceptuando as semanas em que não estiver para isso. E as outras em que vomitar conteúdos desenfreadamente, TOC oblige. 
Então vá.