quinta-feira, 23 de outubro de 2014


A gente cresce, o tempo passa, e a gente cresce. Num repente temos a vida adulta à perna, as ansiedades, os medos genuínos, os medos parvos - uma infinidade de medos - e vamos perdendo quem éramos. Enterramos as conversas de horas, o puro deleite introspectivo. Agora prazos, metas, responsabilidades e raramente as exigências dos adultos casam com arte ou tertúlias. Há que assegurar que se cumpre, que se supera, que não se fica para trás. De um dia passamos a um mês, passamos a um ano, e inaugurámos afinal um modo de vida.
No meio disto há cabrões que encontram para dividir a vida alguém capaz de achar beleza no cinzento. Alguém capaz de vinte minutos dedicados à música, aos livros, às ideias livres, sejam elas o que forem. Gente abençoada.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014


42 mil candidatos ao ensino superior.
105 mil candidatos à Casa dos Segredos.
Podia articular para aqui uma consideração humorística qualquer, mas há coisas com que não se brinca.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014


Se um dia achar maneira de viajar no tempo instalo-me como cetreiro de francelhos na corte do Kublai Khan.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014


lit.

A convivência fazia-se com cordialidade, mas numa aversão inconfessa. Vivia impaciente com os homens daquela terra que destratavam as mulheres numa desconsideração enraizada (e por isso legítima), refinando séculos de cultura machista. Eram óbvias as inseguranças que os atormentavam - ninguém desconsidera quando está seguro do seu valor - mas se normalmente a tolerância aumenta em consciência da fraqueza alheia a ele revoltava-o aquele tipo de dinâmica. A cobardia não era desculpa para o machismo instituído e descobriu, surpreendido, que aquilo que sentia por aqueles homens era pena.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014


Numa taberna escura muito anos quarenta, antro natural de ociosidade e tertúlias, um final de tarde estival embalado com imperiais e uma estupenda mancada do conviva que assistia há dez minutos ao debate dos outros dois, claramente fora de pé.
- Tentei pegar n'Os Thibault mas não tenho estômago para aquilo tudo.
- Não são uma catrefada de volumes?
- Oito! Não consegui pegar no Proust e acho que este vai pelo mesmo caminho.
- O Proust? Ah, não gosto. Li há uns tempos um livro dele e não gostei. É verdade que nunca peguei na obra principal, o Em Busca do Vale Encantado.
- Tempo Perdido.
- Achas tu! Eu ouvi dizer que é essencial para quem quer ser escritor.
- (silêncio).
Delicioso.

segunda-feira, 28 de julho de 2014


Então e uma manhã dedicada a alterar documentos na Loja do Cidadão? Ahn, o êxtase... À semelhança das crianças que entram na hora da parva quando o sono aperta assim uma manhã destas desperta n'O gajo disposição afim.

|| Na secretária do Bilhete de Identidade / Cartão de Cidadão ||

- Desculpe, vem maquilhado?
- Venho sim.
- (silêncio)... Hmm... A altura mantém-se?
- Não, cresci trinta e um centímetros desde a última vez.
- Da última vez tinha vinte e quatro anos.
- Tinha. E não chegava ao balcão. Mas disse à sua colega que me sentia grande por dentro e acordámos este valor. Foi quase na mouche.
- (silêncio)
- (silêncio)
- Mantém a assinatura?
- Posso mudá-la?
- Poder pode mas depois tem de o fazer em montes de sítios.
- Estou a ver...
- Vai mudar muito?
- Estava a pensar fazer um esboço da Guernica.
- (silêncio)
- Do Picasso.
- Não pode fazer isso...
- Nem se for só o cavalo?
- Ahn?
- Fica como está, então.

|| Na zona da fotografia do Bilhete de Identidade / Cartão de Cidadão ||

- Aproxime-se mais da lente.
- Não convém, que isso deforma-me a cara e depois ninguém acredita que sou eu.
- Deforma a cara como? A que propósito?
- Tem que ver com a distância focal da lente.
- Ahn?
- Numa grande angular a gente tem de aproximar-se demasiado da lente e cria-se uma distorção de perspectiva valente. É giro para efeitos de comédia mas pouco útil para efeitos de exercício de cidadania.
- Quer sugerir alguma coisa, já que percebe tanto do assunto?
- Uma lente com uma distância focal equivalente a cem milímetros, e já agora uma iluminação melhor.
- Quer um holofote na tromba?
- Não, que isso baralha de certeza o valor de exposição e provavelmente o balanço de brancos.
- (silêncio)... Pode pôr-se à distância que quiser, depois olhe para a luz vermelha.
- Com certeza.

E é basicamente isto.

sábado, 19 de julho de 2014


O meu cão chegou ressentido do passeio com a dona. É incapaz de me enganar, tudo aquilo é transparência. O que imaginei que tivesse sido um ralhete por ignorar regras de trânsito foi afinal uma tampa duma Schnauzer. Coisas destas é dar-lhes tempo, mas fiz-lhe ver que estou aqui para ele. Eu e uns Cheesy Bites com queijo e carne.

quinta-feira, 3 de julho de 2014


Duas coisas que me fazem comichão no céu da boca

Gente que acha que os olhares que recebe na rua legitimam o seu mau gosto sartorial. Uma senhora na casa dos cinquenta, com mais de cem quilos, de leggings brancas justas e sem roupa interior provoca-me admiração, provoca sim senhor. Mas não a admiração que sinto, vamos lá, num passeio estival num bosque norueguês embalado por Peer Gynt. Não. A admiração é mais parecida com aquela que sinto quando passo por um acidente particularmente grotesco: não consigo deixar de olhar, mas a minha vida será sempre pior daí em diante.

Gente que insiste em maltratar os verbos da primeira conjugação usando a primeira pessoa do plural do Pretérito Perfeito do Indicativo em lugar da primeira pessoa do plural do Presente do Indicativo. Nós não "falamos ontem à tarde com fulano tal". Também não "combinamos ontem à noite fazer isto e aquilo". A não ser que tenhamos arranjado maneira de manipular a continuidade espaço-tempo isto não tem sentido. Calinadas gramaticais que viraram moda é denunciá-las à bruta com muita veemência.

segunda-feira, 23 de junho de 2014


Lançamento internacional do novo citadino duma conhecida marca europeia. Automóvel em exposição, repórter de microfone na mão, abordagem aleatória de transeuntes para recolha de opiniões.
Aproxima-se dela um grupo de três homens e duas mulheres, liderado com espalhafato por um dos tipos, que fala alto e ri com alarvidade. A repórter aborda-o e pede-lhe uma opinião acerca do carro. Ele mostra-se desinteressado e dirige-lhe um movimento de mão normalmente utilizado para afastar moscas; uma das senhoras do grupo oferece-se para lhe responder à pergunta. Quando a entrevistadora abre a questão para o resto do grupo (compraria este carro para si?), o homem adianta-se e diz num sorriso afectado que nunca o apanhariam a guiar uma coisinha daquele tamanho. A repórter pergunta-lhe o que acharia caso a natureza tivesse sido mais generosa e não lhe tivesse dado razões para compensar na escolha dum carro a falta de volume que o aflige noutras áreas da vida.
Olhares desconfortáveis?
Nas palavras duma grande oradora: e não foram poucos, e não são poucos, e não eram muitos; bastantes.

sexta-feira, 30 de maio de 2014


É de louvar quem contribui para a diminuição do efeito de estufa andando dum lado para o outro de bicicleta (principalmente porque cria um crédito de carbono para alguém que, como eu, prefere limitar a sudorese copiosa a momentos específicos do dia). Mas a imagem de senhores de meia idade de calção de licra justinho é trágica e atrasa-me a digestão, portanto se calhar parávamos com isso.

domingo, 18 de maio de 2014


A liturgia hebdomadária do futebol estimula-me a consciência sócio-antropológica. Não pelo que a coisa tem enquanto deleite pelo domínio duma técnica - compreensível - mas pela polarização que opera na sociedade. Vem equilibrar as necessidades de ordem actuais, de grupo, com a entropia antiga, paleolítica. Um escape, no fundo, para as nossas pulsões mais tribais.
Fascinante.

sexta-feira, 2 de maio de 2014


lit.

Como o homebanking estava fora de serviço não teve outro remédio senão meter pés a caminho da ATM mais próxima. Em boa hora o fez, porque o que ouviu na fila resumia com um poder de síntese admirável décadas de discussão acerca do que as mulheres procuram num homem.
É educado, seguro e tem um sentido de humor refinado. Mas tem ar de ser capaz de te dar uma forte contra a parede.

sexta-feira, 18 de abril de 2014


Sou um homem embaraçosamente incompleto. Não possuo nenhuma serra circular de alto desempenho com selector de velocidades e dentes em carboneto de tungsténio. Nós a acharmos que temos a vida compostinha e os anúncios de televendas a darem-nos uma luvada de realidade no frontispício.
Tenho de aplicar-me mais.

quarta-feira, 2 de abril de 2014


Olá a todos,

lembram-se de mim, que da última vez em que me viram ainda gatinhava? Pois eu já não sou esse puto, estou muito mais crescido, farto-me de andar de um lado para o outro, já tenho dentes suficientes para dar umas dentadas e roer os brinquedos para ver ao que sabem.
Sou o mais popular do parque, pelo menos é o que diz a Betty, acho que é porque todos sabem o meu nome e me chamam quando chego e me acenam ao longe quando me vou embora... também acho que é porque me meto com as pessoas, principalmente com um senhor chinês alto, que parece ser segurança... faz lembrar o meu pai.
Para a semana vou para a escolinha, isto em casa estava a começar a ser seca, sempre sozinho, sem muito que fazer.
Estou sempre bem disposto, como bem, mas agora descobri como tirar a comida da boca e assim os meus pais já não me enganam quando me dão comida de que eu não gosto muito. Porto-me bem, porque logo a seguir ao jantar vou para a cama e adormeço sozinho... Desde pequenino que vou para a cama cedo, os meus pais dizem que já não precisam de mim e assim eu já posso dormir descansado.
O meu peso está na média, por isso não me chamem gordo... mas estou mais alto que a média... eheh, já me posso meter com as meninas mais crescidas...
Já quero que os meus pais me cortem o cabelo, porque estão sempre a perguntar se sou uma menina... e depois dizem... ah e tal, é que é tão giro que parece uma menina... treta, é por causa deste cabelinho que a minha mãe adora... mas eu já percebi que mo vão cortar para impôr mais respeito na nova escola.
Beijinhos e abraços a todos, estou cheio de saudades vossas.
Santiago




Grande Santiago,

Folgo em ouvir-te de novo.
Acho muito bem que andes por aí a roer brinquedos como se não houvesse amanhã, à homem.
‘Betty’ é um belíssimo nome, que remete para cabarets, cintos de ligas e can-can. Bem.
De resto, vejo que estás em grande.
Tirares a comida da boca quando não gostas: à macho. Bem.
Andares a sondar miúdas mais crescidas: à macho. Bem.
Quereres um corte de cabelo como deve ser: à macho. Bem.
Despedires-te com um ‘estou cheio de saudades vossas’: à sentimentalão. Mal.
Um verdadeiro macho não se despede assim, pá. O verdadeiro macho nem se despede, deixa as frase a me

quinta-feira, 27 de março de 2014


R está contente.
R está a preparar a casa para uma tarde de sexo vigoroso, arrumando as várias divisões com brio porque R sabe que vai ter sexo em todas elas.
Dez minutos antes da hora combinada entre R e a companheira batem à porta duas septuagenárias para falar com R sobre Deus. Embora atarefado, R é bem formado e não gosta de despachar quem lhe bate à porta, especialmente velhinhas. R pergunta então sobre que deus é que as senhoras querem falar; as senhoras entreolham-se numa expressão confusa; R sugere a mitologia nórdica. As senhoras decidem voltar noutra altura. R despede-se com amizade e volta à lide caseira.
R está contente.

domingo, 23 de março de 2014


Corte e limagem das unhas dos pés no leito conjugal

indesculpável decaimento dos padrões de conduta doméstica
ou
enternecedor testemunho de transparência e confiança?

quarta-feira, 12 de março de 2014


Atentem na excelência do momento que acabei de viver. Na cafetaria duma conceituada instituição de ensino superior estão dois indivíduos debatendo em inglês com um terceiro, numa carregada pronúncia germânica, a intolerável situação que têm vivido em Portugal como doutorandos em Física. O que mais os chocava era a aparente incapacidade dos locais comunicarem em alemão. Um sinal inequívoco de atraso cultural e provincianismo. Porque a Alemanha é a Europa e a Europa é a Alemanha (sic).
É refrescante perceber a transversalidade da imbecilidade.

sábado, 8 de março de 2014

 
A Phillip Island's Penguin Foundation está a pedir camisolinhas de lã para vestir os pinguins que estão a recuperar do contacto com óleo de derrames. Palavra que estou a ponderar aprender a tricotar só para esta ocasião.
 
 
 

quinta-feira, 6 de março de 2014


Fiz anteontem parte do público dum fulano, orador profissional, que debatia a dada altura maneiras de estar na vida. Goste-se ou não do registo pensa-assim-sente-assado sempre se colhe uma ou outra ideia válida de maneira que lá estava eu, não propriamente contra gosto mas com surpreendente dificuldade em embarcar naquela retórica entusiasmada.
O conteúdo era lógico e relevante mas algo na forma estava a manter-me à distância. Não era uma sensação nova, curiosamente, e pus-me à cata da raíz.
É difícil aderir a um discurso que recorre exaustivamente à metáfora, é a conclusão a que cheguei. Nada contra figuras de estilo enquanto exercícios de ênfase, entenda-se; uma hipálage que ajude a traçar um sujeito - óptimo; uma sinestesia que lhe dê contraste - excelente; um oxímoro que o absurdize - magnífico. Mas com peso e medida. O que aconteceu nesta ocasião, e tão amiúde noutras, foi o exagero metafórico. Quer na frequência quer na falta de subtileza. A metáfora demasiado literal empresta definitivamente à mensagem um tom ou bacoco ou paternalista. Revela a parca finura intelectual do orador, que não é capaz de produzir nada mais subtil, e exaspera os ouvintes, que se sentem inferiorizados pela desadequação do tom.
A evitar.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014


Peço desculpa mas não estou em mim. Estou para aqui a fazer um esforço muito grande de contenção e análise mas todo o copo transborda numa altura ou noutra e o meu transbordou hoje de manhã.
Porquê?, interroga o surpreendido leitor. Porque vi pela primeira vez um pardal bebé, tão simples quanto isso. Perante isto é impossível manter que tudo está normal...
O que é que se passa afinal?
Porque é que nunca vemos pardais bebés?
Vivem escondidos durante toda a infância?
Como? Onde? Durante quanto tempo?
Este secretismo é mantido apenas pelos pardais adultos? Ou têm ajuda externa?
De quem? De que forma? Há quanto tempo?
E porquê esta escorregadela agora? Negligência pura ou ratoeira?
Estou tão perdido que tenho passado o dia na cama em posição fetal.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014


Muita horinha foi passada com estes dois de papo para o ar ao domingo. Uma das mais férteis criações da BD.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014


lit.

... mas querem lá eles saber disso só olham para a barriga, este ano a Amélia ficou sem vinte seis euros na reforma já viste tu vinte seis euros nem consegue comprar os remédios todos, o filho também não ajuda nada que desde que emigrou para a Espanha não lhe liga nenhuma aquilo é uma pouca vergonha lá com a espanhola e mais a empresa, estás-me a ouvir homem, o filho desapareceu e ela nem para os remédios tem já viste tu a desgraça podia ser eu naquela miséria, mas claro só cortam onde não devem para contruir estádios têm eles dinheiro
Arrumados na travessa de alumínio a torrada com manteiga, a sandes de queijo, os dois galões e o café cheio. Há penas que ninguém merece e se há coisa que os homens são é solidários entre eles. Olhou o velho com amizade e depois de os servir afastou-se em direcção ao colega, que observava do balcão.
... ela disse-me que o médico dela até é bom mas é muito careiro, outros que só sabem é roubar quem não tem, setenta euros por consulta imagina tu, quem é que pode, mas também já arranjei remédio que ontem na televisão foi ao programa um senhor que vai a casa e tem umas ervas indianas muito boas, não é médico mas é muito bom e fala muito bem, se calhar também te aliviava a vesícula que diz que são muito bons para a digestão, não achas César, também podias pedir ao teu irmão o telefone do cunhado dele para ver se me arranjava umas pomadas que isto continua inchado, olha lá, enfim também não paro de coçar mas o que é que se há de fazer se me dá comichão coço já dizia o outro
Os olhos vidrados no futebol estavam vidrados agora no anúncio a um desumidificador.
... queres mais um café, olha vou pedir-te um e se calhar também bebo e já fico aviada para o dia, claro que em excesso também faz mal porque põem um aditivo qualquer que entope as artérias ou estraga o fígado já não me lembro bem o senhor das ervas é que falou disso ontem, algumas são muito boas mas só em quantidades pequenas e com água fria que com água quente podem mesmo envenenar, já viste o que era chegavas a casa e encontravas-me estendida no chão com o chá espalhado na alcatifa... César?

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014


FNAC. Dezanove horas. Zona de leitura, várias cabeças mergulhadas em romances, guias turísticos e bandas desenhadas.
Aparece uma rapariguinha de escola falando naquele tom característico dos adolescentes, demasiado alto para as reais necessidades de comunicação. Várias cabeças espreitam por cima dos livros e um homem de meia idade, de ar distinto, dirige à esposa uma consideração desaprovadora
Se não têm a atenção de toda a gente derretem...
Concordando com a análise do marido, acrescenta num tom suave
O que explica a vestimenta imprópria.
A mãe da pequena está atrás do casal e abespinha-se. Fala alto e bom som acerca da injustiça daquela análise, perante a serenidade dos dois. Quando acaba a verrina é brindada pelo cavalheiro com uma das melhores frases dos últimos anos
Quando se vêem os grandes lábios da sua filha através das calças já estamos no domínio do insofismável, minha senhora.
Tive de controlar-me para não aplaudir.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Ia hoje no metro uma senhora de idade a falar com outra senhora de idade.
Dizia uma
Temos conversado muito, sempre à noite e de vez em quando a seguir ao almoço ou de manhã, é quando me dá.
Questionava a amiga
Tem-te ajudado?
Garantia a primeira
Muito, o Jesus é um amigo como não tive muitos. Sempre disponível.
Foi ao fim de uns bons cinco minutos disto que percebi que estavam a falar do Messias.
Não sei o que hei de sentir, confesso.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014


A Universidade Lusófona é um sem fim de bons momentos.
Há uns meses descobrimos a seriedade com que encara a formação académica dos seus alunos. Mostrou-nos a todos que aprender para passar é um bocado parvo. O truque está em construir um currículo profissional cheio de valências e trocá-las depois por créditos universitários. Tem duas vantagens: reedita no aluno aquela felicidade pueril da troca de cromos com os amigos (troca-me aí um estágio por uma teórico-prática do 3º ano) e poupa-o à maçada de ter de acordar cedo, estudar e almoçar as pataniscas rançosas da cantina.
Agora ficámos a conhecer a retidão que coloca também na formação humana dos seus pupilos. No seguimento da morte de seis dos seus estudantes numa praia do Meco, na sequência de uma praxe que correu mal, há um mancebo que publica um aviso num tom que envergonharia a 'Ndrangheta.
Se formos inclinados a reflexões filosóficas não podemos deixar de detectar uma coerência pedagógica irrepreensível. Igualmente exemplar é o testemunho da evolução da personalidade mafiosa: do aluno que ameaça os colegas ao político de carreira. É como aquela imagem clássica da evolução do hominídeo violento para o homem superior. Sendo que neste caso o percurso é o inverso.

sábado, 18 de janeiro de 2014

 
lit.
 
Estava há cinquenta e dois minutos à espera quando o mandaram entrar. Sentou-se do outro lado da secretária de frente para o médico, um indivíduo calvo e gordinho de óculos de massa e olhos claros. O contraste físico entre os dois homens era antropologicamente notável.
Estamos melhor?
Já me dói menos o corpo, sim.
Os comprimidos, às horas certas?
Sim.
E já começou a fisioterapia?
Ainda não, doutor.
Nem fazia tenção de a começar; não era a primeira vez que ficava amassado num combate e costumava lamber as feridas sozinho.
Diga-me o resultado da TAC assim que o tiver e evite esforços físicos nas próximas semanas. Os treinos estão fora de questão, claro.
...
Tem posto as bolsas de frio nos braços e nas coxas?
Não doutor, não encontrei para o meu número.
Então improvise qualquer coisa. Duas horas de frio por dia no mínimo, já sabe.
Oscultou-o, mediu-lhe a pressão arterial, rabiscou a ficha clínica e dispensou-o.
Quando saiu para a rua fazia frio e estava escuro. Perdera muito mais tempo do que contava e ia atrasar-se para o jantar. Talvez a mulher não tivesse feito nada de muito especial ou que exigisse pontualidade. Não gostava de se atrasar e menos ainda de a desiludir.
Decidiu atalhar pelas traseiras da loja de móveis, virar à esquerda na papelaria e contornar o antigo pavilhão de ginástica; depois atravessar o terreno baldio da Câmara, vedado há anos, e o bairro antigo. Nada de extraordinário, apenas bom senso e sentido de orientação.
Galgou numa passada ampla um muro baixo e sentiu a coxa latejar. Desta vez fora demasiado longe. A mulher alertara-o nos últimos tempos para o peso dos anos e das mazelas, numa apreensão quase maternal. Sabia que não podia abrandar; admitir que talvez fosse altura de pendurar as luvas significava abdicar de bem mais do que um desporto. Não era uma desistência para a qual estivesse preparado. Mas talvez a sugestão do gelo não fosse descabida...
Estranhou o som abafado que ouviu para lá das portas de metal do antigo ginásio, por isso abrandou o passo e encostou o ouvido à chapa. O ruído vinha de longe e as trancas estavam abertas; antes de pensar já estava mergulhado no escuro do pavilhão.
Percebeu duas vozes para lá dum corredor estreito. O homem rosnava qualquer coisa indecifrável e a mulher choramingava e gemia entre soluços. Talvez pelo treino de anos, talvez pela cena que previa, talvez por outra coisa qualquer, ficou tenso e alerta. Cruzou o corredor num passo ligeiro, desceu a escada de ferro para a cave sem qualquer som e parou atrás duma fila de cacifos. O homem mantinha um pé em cima da mulher, caída no chão seminua e ensanguentada. Porque estava de costas, não o viu e manteve-lhe a lanterna apontada. Porque ela estava de bruços, virada para os cacifos, encontrou-o na sombra e olhou-o com desespero. Nunca ninguém lhe parecera tão pequeno.
A primeira fractura foi nas costelas. Na surpresa do ataque a lanterna caiu ao chão e a única luz passou a ser a que coava pela janela junto ao tecto vinda dum candeeiro da rua. Enquanto o homem cambaleava a mulher reuniu forças e fugiu, oferecendo àquele salvador impossível uns olhos enormes. Atirou o homem ao chão com uma joelhada no estômago, prendou-o entre as coxas e começou a sová-lo.
Não sabe quanto tempo aquilo durou. Parou quando as mãos, habituadas a maus tratos, deixaram de dar acordo. Não se impressionava facilmente mas o que viu no chão assustou-o. Não ia ser fácil identificar o corpo.
O mesmo ímpeto que o conduziu àquela sala levou-o de novo para a rua. Não era bem ele, movia-se numa semi-consciência atípica. Deixou o casaco num contentor de lixo à saída do ginásio e o caminho até casa foi como um daqueles sonhos que confundimos com a realidade.
A mulher tinha grelhado salmão e pimentos e recebeu-o com apreensão; o cheiro a churrasco puxou-o ligeiramente do torpor.
Está tudo bem, homem?
Sorriu-lhe com dificuldade e desculpou-se para a casa de banho. Acendeu um cigarro às escuras, a sentir o corpo a doer de novo, e ficou à espera de qualquer coisa. Do quê não sabia.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014


O Inferno existe e é um local de sofrimento inimaginável, tal como apregoam as Escrituras. A sentença para as almas pecadoras é uma eternidade passada a enfiar edredons de casal nas respectivas capas sem qualquer tipo de ajuda.

domingo, 5 de janeiro de 2014


Há algo anacrónico e lúgubre num espectáculo de circo. O fascínio pelo domínio duma arte física continue tão vivo em nós como nos públicos vitorianos, mas o que era novidade no século dezanove dificilmente o é em dois mil e catorze. Os circos deixaram de ser há muito os únicos palcos onde podemos admirar piruetas arriscadas e senhoras de maillot - basta uma ligação à internet.
O mais sinistro são mesmo os palhaços. Quando era miúdo havia sempre um palhaço triste e um palhaço contente. Hoje em dia acho-os todos tristes. Porque o humor é humilde e estafado; porque os desgraçados, muitos com idade de avô, passam o dia maquilhados com tintas cancerígenas; porque a maior parte vive numa pobreza miserável anestesiada à custa de bebida.
Há nestes espectáculos toda uma cultura de desrespeito que me faz espécie. Pôr um homem de meia idade a repetir palermices de cara pintada, ou um ginasta dorido a replicar os mesmos pinotes vezes sem conta, ou a partenaire dum mágico a surpreender-se com o truque de sempre é rebaixá-los. Não consigo deixar de pensar que de cada vez que repetem a rotina vendem um bocado da alma. Não é coisa que me apeteça aplaudir.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014


Quantos de nós teríamos atingido a idade actual tivéssemos nascido há duzentos anos?