sábado, 31 de agosto de 2013


A propósito da facilidade em ganhar um prémio que se veja no Euromilhões ouvi de passagem que probabilidades de meio por cento nem contam. Discordo. Meio por cento não é despiciendo. Meio por cento tem peso. Meio por cento faz toda a diferença. A actual chanceler alemã e a menina que mia no videoclip do tema Blurred Lines diferem somente 0,1% a nível genómico. Digam lá outra vez que meio por cento não conta.
Exacto.

terça-feira, 27 de agosto de 2013


O Remy, porque é rato, morrerá muito antes do Linguini.
É uma ideia que desconcerta.

domingo, 25 de agosto de 2013

 
O ser humano tem um potencial extraordinário. Ao pequeno almoço de hoje o Sceptical Essays do Bertrand Russell brindou-me com esta prosa:
 
I wish to propose for the reader's favourable consideration a doctrine which may, I fear, appear wildly paradoxical and subversive. The doctrine in question is this: that it is undesirable to believe a proposition when there is no ground whatever for supposing it true.
 
É uma passagem dum livro gordo de sumo que ilustra na mouche o olhar crítico do autor perante a realidade. Observação, interpretação, conclusão. Livros que nos obrigam a pensar deviam ser obrigatórios na escola. Quão mais útil teria sido interpretar Russel no lugar de contar sílabas métricas em cantigas de amigo?
Saio eu deste banhinho reparador, enrijado e catita, para enfiar o pezinho em bosta. Da figurada, caro leitor. Fosse antes a literal. Essa, por desagradável que seja raspá-la das solas, é mister fisiológico. Parece que uma quantidade considerável de gente decidiu consagrar a trigésima quarta semana de dois mil e treze à mui produtiva discussão, na internet em geral e nas redes sociais em particular, acerca do alegado silicone que determinada actriz colocou nas nádegas e nas mamas. Os opinadores entrincheiraram-se dos dois lados da discussão, arremessando impropérios rasteirinhos. A visada abespinhiçou-se e veio a público mostrar, abespinhada, que não o estava. Críticos sociais e jornalistas tertuliaram acerca do problema com ar grave.
Demasiado de uma coisa boa enjoa, e como tal a vida brinda-nos com estes antónimos. É simpático da parte dela.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013


As ruas salpicadas de cafés e esplanadas, quando sai o sol, e os centros comerciais, doze meses por ano, são laboratórios sociológicos por excelência.
Constato uma certa tendência hodierna de passear na via pública em tronco nu. Normalmente mancebos a quem desponta o buço, embora não exclusivamente. É, contudo, o grupo maioritário. Partilho algumas das minhas notas de terreno de hoje.
 
Manhã soalheira de Agosto, vinte e oito graus centígrados, rua de comércio dum bairro lisboeta
 
Recolha |
O grupo é constituído por três jovens púberes. Dois deles em tronco nu, o terceiro com uma camisola de alças rasgada.
Tentam equilibrar nas coxas calções de ganga três números acima, com notória dificuldade  Esta acção impõe-lhes um andar coreico e exige o constante ajuste manual do cós. A região supra-púbica e sagrada espreita acima dos boxers, largos e de cores garridas.
Têm o ar levemente emaciado das crianças em acelerado crescimento epifisário, embora exibam o corpo com evidente orgulho. Tocam-se a si próprios várias vezes, maioritariamente no peito e nos braços.
Dois deles envergam bonés com a pala orientada para o lado direito, que ajeitam sempre que não estão a ajeitar os calções. Usam óculos de sol de cores primárias com lentes espelhadas e têm a cavalo no pescoço auscultadores da década de oitenta.
Falam alto, monitorizando constantemente o impacto que a sua presença está a ter nos demais transeuntes. Desrespeitam facilmente a ordem duma fila indiana (numa padaria, por exemplo) e praticam a insolência com evidente à-vontade. 
 
Interpretação |
A homogeneidade no vestuário e acessórios sugere uma assunção pública, descomplexada, do carinho que os une. Um ritual de comunhão, como o dos recém-casados que exibem orgulhosamente as alianças, símbolos da sua união.
A exposição dos grandes glúteos parece-me um sinal inequívoco de submissão, num curioso paralelo com a linguagem corporal canina.
As duas características supracitadas, somadas à ostentação do fenótipo desnudado, apontam para uma orientação homossexual de carácter passivo.
Toda esta extravagância comportamental indica baixa autoestima e fraca adequação à vida em sociedade, sugerindo valores de QI dois ou mais desvios padrão à esquerda da média numa distribuição gaussiana.

Já remeti esta douta análise ao Smithsonian.

domingo, 11 de agosto de 2013


A morte deixa um sabor a nada. A boca seca, a mente pára, a compreensão não compreende. Fica um vazio estúpido, um porquê sem resposta. É de um egoísmo grande: eu não volto a ver esta pessoa, eu não volto a ouvi-la, eu não volto a apreciá-la. Mas é assim. Quando alguém nos morre, leva-nos uma porrada de coisas.
Ontem morreu um homem muito bom. Não é por ter morrido que o digo. Disse-o antes. Felizmente também a ele, algumas vezes. Talvez pudesse ter dito mais. Partilhámos o palco; a excitação que antecede a entrada em cena - aquilo que leva tanta gente a ser actor -  aproxima-nos como poucas coisas. Porque então estamos nus, verdadeiramente nus, e aí conseguimos ver a verdade no outro. A verdade dele era ternura. Disponibilidade, respeito e lealdade. Um homem ainda novo, mas antigo nalgumas coisas. No respeito pelos outros, um espírito anacrónico.
Costumava dizer olá rapariga, viva rapaz, adeus rapariga.
Adeus rapaz... A quem é que eu me despeço de ti?

quinta-feira, 8 de agosto de 2013


Wonders of Life (Brian Cox, físico de partículas), What's Life (Erwin Schrödinger, físico) e Status Anxiety (Alain de Botton, filósofo): três livros que na minha história pessoal se juntaram numa salada particularmente estimulante, ponto de partida para um trajecto de considerações curioso. Achei interessante partilhá-lo. Se o leitor tiver algo de mais interessante para fazer, fique por aqui. Se for amante de um exerciciozinho teórico, ou insone, continue comigo.

Os três vectores directores da vida - a conservação (homeostase, metabolismo, crescimento), a adaptação a estímulos do meio e a propagação do material genético - são tão antigos quanto a própria vida em si (qualquer coisa como três mil e setecentos milhões de anos). Mesmo com o extraordinário desenvolvimento cerebral da nossa espécie, continuamos reféns absolutos.
Mas é por causa deste extraordinário desenvolvimento cerebral que a propagação do material genético adquire manifestações tão distintas. A pulsão milenar da reprodução é ubíqua mas metamorfoseou-se em dezenas de outras. Foi sempre uma competição: estamos programados para deixar a maior descendência possível e eliminar a alheia. Por isso deitamos mão aos melhores instrumentos com que a inteligência e a era nos brindam; instrumentos que nos distingam dos outros, que nos comprem atenção, reverência, aceitação - amor. Lutarmos por carreiras com destaque social e proveitos financeiros gordos é procurarmos uma posição melhor do que a do vizinho do lado. Almejar um carro melhor do que o desse vizinho é procurarmos chegar à frente na fila. Ou vestir roupa desta marca, passar férias naquele sítio, aparecer naqueloutra festa. Sempre meios, nunca fins em si mesmos.
 
Na nossa espécie a inteligência sobrepôs-se à força. Não sei se é uma estreia mas é certamente pouco frequente; ao longo da árvore filogenética a norma é outra. Tornámo-nos a única espécie do género Homo não pela força das fibras musculares mas pelo poder do córtex cerebral. A caminhada que iniciámos há cento e cinquenta mil anos foi a caminhada do intelecto. A capacidade de manipular o ambiente e os outros tornou-se a força definidora da posição social que ocupamos e o macho-alfa deixou de o ser por ser mais alto, mais forte ou mais rápido. Lidera quem tem o maior intelecto e o transmite pela acção - normalmente da palavra.
 
Isto é terreno fértil para a frustração. Se sou grande, forte, deveria ser um líder nato. É  o que acontece nas outras espécies. Porque é que sou subalterno? Porque é que sigo em vez de liderar? Calar o instinto primordial de tamanho-é-poder não é fácil.
A invenção setecentista da meritocracia também não ajuda, tão arreigada que está. Posso-ser-o-que-quiser. Com-trabalho-consigo-tudo. Toda-a-gente-pode-ser-líder. Lamentavelmente, não. Se fossemos todos líderes não restaria ninguém para liderarmos o que inauguraria, por si só, um paradoxo.