sexta-feira, 16 de junho de 2017

Quando é que partimos a redoma de vidro a que nos condenámos e que nos abraça esta ou aquela dor, medo, tristeza, culpa? Que nos abraça a insegurança. É a propósito da insegurança que vivemos fechados (causa - consequência) e o crecimento só se faz sem dor até o vidro começar a morder a pele, a ferir os ombros e os cotovelos e a cabeça do corpo que vai crescendo. E é um vidro que só parte por dentro.

Vou roubar para mim esta entrevista íntima dada pelo enfant terrible MPW acerca da vida dele, do que conseguiu vencer e de onde está hoje, em paz, introspectivo, disponível a saber escutar, a saber falar com controlo e elegância. Mais velho, mas com muito tempo ainda. Tempo para perceber quem é o verdadeiro Marco.







quinta-feira, 23 de outubro de 2014


A gente cresce, o tempo passa, e a gente cresce. Num repente temos a vida adulta à perna, as ansiedades, os medos genuínos, os medos parvos - uma infinidade de medos - e vamos perdendo quem éramos. Enterramos as conversas de horas, o puro deleite introspectivo. Agora prazos, metas, responsabilidades e raramente as exigências dos adultos casam com arte ou tertúlias. Há que assegurar que se cumpre, que se supera, que não se fica para trás. De um dia passamos a um mês, passamos a um ano, e inaugurámos afinal um modo de vida.
No meio disto há cabrões que encontram para dividir a vida alguém capaz de achar beleza no cinzento. Alguém capaz de vinte minutos dedicados à música, aos livros, às ideias livres, sejam elas o que forem. Gente abençoada.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014


42 mil candidatos ao ensino superior.
105 mil candidatos à Casa dos Segredos.
Podia articular para aqui uma consideração humorística qualquer, mas há coisas com que não se brinca.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014


Se um dia achar maneira de viajar no tempo instalo-me como cetreiro de francelhos na corte do Kublai Khan.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014


lit.

A convivência fazia-se com cordialidade, mas numa aversão inconfessa. Vivia impaciente com os homens daquela terra que destratavam as mulheres numa desconsideração enraizada (e por isso legítima), refinando séculos de cultura machista. Eram óbvias as inseguranças que os atormentavam - ninguém desconsidera quando está seguro do seu valor - mas se normalmente a tolerância aumenta em consciência da fraqueza alheia a ele revoltava-o aquele tipo de dinâmica. A cobardia não era desculpa para o machismo instituído e descobriu, surpreendido, que aquilo que sentia por aqueles homens era pena.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014


Numa taberna escura muito anos quarenta, antro natural de ociosidade e tertúlias, um final de tarde estival embalado com imperiais e uma estupenda mancada do conviva que assistia há dez minutos ao debate dos outros dois, claramente fora de pé.
- Tentei pegar n'Os Thibault mas não tenho estômago para aquilo tudo.
- Não são uma catrefada de volumes?
- Oito! Não consegui pegar no Proust e acho que este vai pelo mesmo caminho.
- O Proust? Ah, não gosto. Li há uns tempos um livro dele e não gostei. É verdade que nunca peguei na obra principal, o Em Busca do Vale Encantado.
- Tempo Perdido.
- Achas tu! Eu ouvi dizer que é essencial para quem quer ser escritor.
- (silêncio).
Delicioso.

segunda-feira, 28 de julho de 2014


Então e uma manhã dedicada a alterar documentos na Loja do Cidadão? Ahn, o êxtase... À semelhança das crianças que entram na hora da parva quando o sono aperta assim uma manhã destas desperta n'O gajo disposição afim.

|| Na secretária do Bilhete de Identidade / Cartão de Cidadão ||

- Desculpe, vem maquilhado?
- Venho sim.
- (silêncio)... Hmm... A altura mantém-se?
- Não, cresci trinta e um centímetros desde a última vez.
- Da última vez tinha vinte e quatro anos.
- Tinha. E não chegava ao balcão. Mas disse à sua colega que me sentia grande por dentro e acordámos este valor. Foi quase na mouche.
- (silêncio)
- (silêncio)
- Mantém a assinatura?
- Posso mudá-la?
- Poder pode mas depois tem de o fazer em montes de sítios.
- Estou a ver...
- Vai mudar muito?
- Estava a pensar fazer um esboço da Guernica.
- (silêncio)
- Do Picasso.
- Não pode fazer isso...
- Nem se for só o cavalo?
- Ahn?
- Fica como está, então.

|| Na zona da fotografia do Bilhete de Identidade / Cartão de Cidadão ||

- Aproxime-se mais da lente.
- Não convém, que isso deforma-me a cara e depois ninguém acredita que sou eu.
- Deforma a cara como? A que propósito?
- Tem que ver com a distância focal da lente.
- Ahn?
- Numa grande angular a gente tem de aproximar-se demasiado da lente e cria-se uma distorção de perspectiva valente. É giro para efeitos de comédia mas pouco útil para efeitos de exercício de cidadania.
- Quer sugerir alguma coisa, já que percebe tanto do assunto?
- Uma lente com uma distância focal equivalente a cem milímetros, e já agora uma iluminação melhor.
- Quer um holofote na tromba?
- Não, que isso baralha de certeza o valor de exposição e provavelmente o balanço de brancos.
- (silêncio)... Pode pôr-se à distância que quiser, depois olhe para a luz vermelha.
- Com certeza.

E é basicamente isto.

sábado, 19 de julho de 2014


O meu cão chegou ressentido do passeio com a dona. É incapaz de me enganar, tudo aquilo é transparência. O que imaginei que tivesse sido um ralhete por ignorar regras de trânsito foi afinal uma tampa duma Schnauzer. Coisas destas é dar-lhes tempo, mas fiz-lhe ver que estou aqui para ele. Eu e uns Cheesy Bites com queijo e carne.

quinta-feira, 3 de julho de 2014


Duas coisas que me fazem comichão no céu da boca

Gente que acha que os olhares que recebe na rua legitimam o seu mau gosto sartorial. Uma senhora na casa dos cinquenta, com mais de cem quilos, de leggings brancas justas e sem roupa interior provoca-me admiração, provoca sim senhor. Mas não a admiração que sinto, vamos lá, num passeio estival num bosque norueguês embalado por Peer Gynt. Não. A admiração é mais parecida com aquela que sinto quando passo por um acidente particularmente grotesco: não consigo deixar de olhar, mas a minha vida será sempre pior daí em diante.

Gente que insiste em maltratar os verbos da primeira conjugação usando a primeira pessoa do plural do Pretérito Perfeito do Indicativo em lugar da primeira pessoa do plural do Presente do Indicativo. Nós não "falamos ontem à tarde com fulano tal". Também não "combinamos ontem à noite fazer isto e aquilo". A não ser que tenhamos arranjado maneira de manipular a continuidade espaço-tempo isto não tem sentido. Calinadas gramaticais que viraram moda é denunciá-las à bruta com muita veemência.

segunda-feira, 23 de junho de 2014


Lançamento internacional do novo citadino duma conhecida marca europeia. Automóvel em exposição, repórter de microfone na mão, abordagem aleatória de transeuntes para recolha de opiniões.
Aproxima-se dela um grupo de três homens e duas mulheres, liderado com espalhafato por um dos tipos, que fala alto e ri com alarvidade. A repórter aborda-o e pede-lhe uma opinião acerca do carro. Ele mostra-se desinteressado e dirige-lhe um movimento de mão normalmente utilizado para afastar moscas; uma das senhoras do grupo oferece-se para lhe responder à pergunta. Quando a entrevistadora abre a questão para o resto do grupo (compraria este carro para si?), o homem adianta-se e diz num sorriso afectado que nunca o apanhariam a guiar uma coisinha daquele tamanho. A repórter pergunta-lhe o que acharia caso a natureza tivesse sido mais generosa e não lhe tivesse dado razões para compensar na escolha dum carro a falta de volume que o aflige noutras áreas da vida.
Olhares desconfortáveis?
Nas palavras duma grande oradora: e não foram poucos, e não são poucos, e não eram muitos; bastantes.

sexta-feira, 30 de maio de 2014


É de louvar quem contribui para a diminuição do efeito de estufa andando dum lado para o outro de bicicleta (principalmente porque cria um crédito de carbono para alguém que, como eu, prefere limitar a sudorese copiosa a momentos específicos do dia). Mas a imagem de senhores de meia idade de calção de licra justinho é trágica e atrasa-me a digestão, portanto se calhar parávamos com isso.

domingo, 18 de maio de 2014


A liturgia hebdomadária do futebol estimula-me a consciência sócio-antropológica. Não pelo que a coisa tem enquanto deleite pelo domínio duma técnica - compreensível - mas pela polarização que opera na sociedade. Vem equilibrar as necessidades de ordem actuais, de grupo, com a entropia antiga, paleolítica. Um escape, no fundo, para as nossas pulsões mais tribais.
Fascinante.

sexta-feira, 2 de maio de 2014


lit.

Como o homebanking estava fora de serviço não teve outro remédio senão meter pés a caminho da ATM mais próxima. Em boa hora o fez, porque o que ouviu na fila resumia com um poder de síntese admirável décadas de discussão acerca do que as mulheres procuram num homem.
É educado, seguro e tem um sentido de humor refinado. Mas tem ar de ser capaz de te dar uma forte contra a parede.

sexta-feira, 18 de abril de 2014


Sou um homem embaraçosamente incompleto. Não possuo nenhuma serra circular de alto desempenho com selector de velocidades e dentes em carboneto de tungsténio. Nós a acharmos que temos a vida compostinha e os anúncios de televendas a darem-nos uma luvada de realidade no frontispício.
Tenho de aplicar-me mais.

quarta-feira, 2 de abril de 2014


Olá a todos,

lembram-se de mim, que da última vez em que me viram ainda gatinhava? Pois eu já não sou esse puto, estou muito mais crescido, farto-me de andar de um lado para o outro, já tenho dentes suficientes para dar umas dentadas e roer os brinquedos para ver ao que sabem.
Sou o mais popular do parque, pelo menos é o que diz a Betty, acho que é porque todos sabem o meu nome e me chamam quando chego e me acenam ao longe quando me vou embora... também acho que é porque me meto com as pessoas, principalmente com um senhor chinês alto, que parece ser segurança... faz lembrar o meu pai.
Para a semana vou para a escolinha, isto em casa estava a começar a ser seca, sempre sozinho, sem muito que fazer.
Estou sempre bem disposto, como bem, mas agora descobri como tirar a comida da boca e assim os meus pais já não me enganam quando me dão comida de que eu não gosto muito. Porto-me bem, porque logo a seguir ao jantar vou para a cama e adormeço sozinho... Desde pequenino que vou para a cama cedo, os meus pais dizem que já não precisam de mim e assim eu já posso dormir descansado.
O meu peso está na média, por isso não me chamem gordo... mas estou mais alto que a média... eheh, já me posso meter com as meninas mais crescidas...
Já quero que os meus pais me cortem o cabelo, porque estão sempre a perguntar se sou uma menina... e depois dizem... ah e tal, é que é tão giro que parece uma menina... treta, é por causa deste cabelinho que a minha mãe adora... mas eu já percebi que mo vão cortar para impôr mais respeito na nova escola.
Beijinhos e abraços a todos, estou cheio de saudades vossas.
Santiago




Grande Santiago,

Folgo em ouvir-te de novo.
Acho muito bem que andes por aí a roer brinquedos como se não houvesse amanhã, à homem.
‘Betty’ é um belíssimo nome, que remete para cabarets, cintos de ligas e can-can. Bem.
De resto, vejo que estás em grande.
Tirares a comida da boca quando não gostas: à macho. Bem.
Andares a sondar miúdas mais crescidas: à macho. Bem.
Quereres um corte de cabelo como deve ser: à macho. Bem.
Despedires-te com um ‘estou cheio de saudades vossas’: à sentimentalão. Mal.
Um verdadeiro macho não se despede assim, pá. O verdadeiro macho nem se despede, deixa as frase a me

quinta-feira, 27 de março de 2014


R está contente.
R está a preparar a casa para uma tarde de sexo vigoroso, arrumando as várias divisões com brio porque R sabe que vai ter sexo em todas elas.
Dez minutos antes da hora combinada entre R e a companheira batem à porta duas septuagenárias para falar com R sobre Deus. Embora atarefado, R é bem formado e não gosta de despachar quem lhe bate à porta, especialmente velhinhas. R pergunta então sobre que deus é que as senhoras querem falar; as senhoras entreolham-se numa expressão confusa; R sugere a mitologia nórdica. As senhoras decidem voltar noutra altura. R despede-se com amizade e volta à lide caseira.
R está contente.

domingo, 23 de março de 2014


Corte e limagem das unhas dos pés no leito conjugal

indesculpável decaimento dos padrões de conduta doméstica
ou
enternecedor testemunho de transparência e confiança?

quarta-feira, 12 de março de 2014


Atentem na excelência do momento que acabei de viver. Na cafetaria duma conceituada instituição de ensino superior estão dois indivíduos debatendo em inglês com um terceiro, numa carregada pronúncia germânica, a intolerável situação que têm vivido em Portugal como doutorandos em Física. O que mais os chocava era a aparente incapacidade dos locais comunicarem em alemão. Um sinal inequívoco de atraso cultural e provincianismo. Porque a Alemanha é a Europa e a Europa é a Alemanha (sic).
É refrescante perceber a transversalidade da imbecilidade.

sábado, 8 de março de 2014

 
A Phillip Island's Penguin Foundation está a pedir camisolinhas de lã para vestir os pinguins que estão a recuperar do contacto com óleo de derrames. Palavra que estou a ponderar aprender a tricotar só para esta ocasião.
 
 
 

quinta-feira, 6 de março de 2014


Fiz anteontem parte do público dum fulano, orador profissional, que debatia a dada altura maneiras de estar na vida. Goste-se ou não do registo pensa-assim-sente-assado sempre se colhe uma ou outra ideia válida de maneira que lá estava eu, não propriamente contra gosto mas com surpreendente dificuldade em embarcar naquela retórica entusiasmada.
O conteúdo era lógico e relevante mas algo na forma estava a manter-me à distância. Não era uma sensação nova, curiosamente, e pus-me à cata da raíz.
É difícil aderir a um discurso que recorre exaustivamente à metáfora, é a conclusão a que cheguei. Nada contra figuras de estilo enquanto exercícios de ênfase, entenda-se; uma hipálage que ajude a traçar um sujeito - óptimo; uma sinestesia que lhe dê contraste - excelente; um oxímoro que o absurdize - magnífico. Mas com peso e medida. O que aconteceu nesta ocasião, e tão amiúde noutras, foi o exagero metafórico. Quer na frequência quer na falta de subtileza. A metáfora demasiado literal empresta definitivamente à mensagem um tom ou bacoco ou paternalista. Revela a parca finura intelectual do orador, que não é capaz de produzir nada mais subtil, e exaspera os ouvintes, que se sentem inferiorizados pela desadequação do tom.
A evitar.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014


Peço desculpa mas não estou em mim. Estou para aqui a fazer um esforço muito grande de contenção e análise mas todo o copo transborda numa altura ou noutra e o meu transbordou hoje de manhã.
Porquê?, interroga o surpreendido leitor. Porque vi pela primeira vez um pardal bebé, tão simples quanto isso. Perante isto é impossível manter que tudo está normal...
O que é que se passa afinal?
Porque é que nunca vemos pardais bebés?
Vivem escondidos durante toda a infância?
Como? Onde? Durante quanto tempo?
Este secretismo é mantido apenas pelos pardais adultos? Ou têm ajuda externa?
De quem? De que forma? Há quanto tempo?
E porquê esta escorregadela agora? Negligência pura ou ratoeira?
Estou tão perdido que tenho passado o dia na cama em posição fetal.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014


Muita horinha foi passada com estes dois de papo para o ar ao domingo. Uma das mais férteis criações da BD.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014


lit.

... mas querem lá eles saber disso só olham para a barriga, este ano a Amélia ficou sem vinte seis euros na reforma já viste tu vinte seis euros nem consegue comprar os remédios todos, o filho também não ajuda nada que desde que emigrou para a Espanha não lhe liga nenhuma aquilo é uma pouca vergonha lá com a espanhola e mais a empresa, estás-me a ouvir homem, o filho desapareceu e ela nem para os remédios tem já viste tu a desgraça podia ser eu naquela miséria, mas claro só cortam onde não devem para contruir estádios têm eles dinheiro
Arrumados na travessa de alumínio a torrada com manteiga, a sandes de queijo, os dois galões e o café cheio. Há penas que ninguém merece e se há coisa que os homens são é solidários entre eles. Olhou o velho com amizade e depois de os servir afastou-se em direcção ao colega, que observava do balcão.
... ela disse-me que o médico dela até é bom mas é muito careiro, outros que só sabem é roubar quem não tem, setenta euros por consulta imagina tu, quem é que pode, mas também já arranjei remédio que ontem na televisão foi ao programa um senhor que vai a casa e tem umas ervas indianas muito boas, não é médico mas é muito bom e fala muito bem, se calhar também te aliviava a vesícula que diz que são muito bons para a digestão, não achas César, também podias pedir ao teu irmão o telefone do cunhado dele para ver se me arranjava umas pomadas que isto continua inchado, olha lá, enfim também não paro de coçar mas o que é que se há de fazer se me dá comichão coço já dizia o outro
Os olhos vidrados no futebol estavam vidrados agora no anúncio a um desumidificador.
... queres mais um café, olha vou pedir-te um e se calhar também bebo e já fico aviada para o dia, claro que em excesso também faz mal porque põem um aditivo qualquer que entope as artérias ou estraga o fígado já não me lembro bem o senhor das ervas é que falou disso ontem, algumas são muito boas mas só em quantidades pequenas e com água fria que com água quente podem mesmo envenenar, já viste o que era chegavas a casa e encontravas-me estendida no chão com o chá espalhado na alcatifa... César?

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014


FNAC. Dezanove horas. Zona de leitura, várias cabeças mergulhadas em romances, guias turísticos e bandas desenhadas.
Aparece uma rapariguinha de escola falando naquele tom característico dos adolescentes, demasiado alto para as reais necessidades de comunicação. Várias cabeças espreitam por cima dos livros e um homem de meia idade, de ar distinto, dirige à esposa uma consideração desaprovadora
Se não têm a atenção de toda a gente derretem...
Concordando com a análise do marido, acrescenta num tom suave
O que explica a vestimenta imprópria.
A mãe da pequena está atrás do casal e abespinha-se. Fala alto e bom som acerca da injustiça daquela análise, perante a serenidade dos dois. Quando acaba a verrina é brindada pelo cavalheiro com uma das melhores frases dos últimos anos
Quando se vêem os grandes lábios da sua filha através das calças já estamos no domínio do insofismável, minha senhora.
Tive de controlar-me para não aplaudir.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Ia hoje no metro uma senhora de idade a falar com outra senhora de idade.
Dizia uma
Temos conversado muito, sempre à noite e de vez em quando a seguir ao almoço ou de manhã, é quando me dá.
Questionava a amiga
Tem-te ajudado?
Garantia a primeira
Muito, o Jesus é um amigo como não tive muitos. Sempre disponível.
Foi ao fim de uns bons cinco minutos disto que percebi que estavam a falar do Messias.
Não sei o que hei de sentir, confesso.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014


A Universidade Lusófona é um sem fim de bons momentos.
Há uns meses descobrimos a seriedade com que encara a formação académica dos seus alunos. Mostrou-nos a todos que aprender para passar é um bocado parvo. O truque está em construir um currículo profissional cheio de valências e trocá-las depois por créditos universitários. Tem duas vantagens: reedita no aluno aquela felicidade pueril da troca de cromos com os amigos (troca-me aí um estágio por uma teórico-prática do 3º ano) e poupa-o à maçada de ter de acordar cedo, estudar e almoçar as pataniscas rançosas da cantina.
Agora ficámos a conhecer a retidão que coloca também na formação humana dos seus pupilos. No seguimento da morte de seis dos seus estudantes numa praia do Meco, na sequência de uma praxe que correu mal, há um mancebo que publica um aviso num tom que envergonharia a 'Ndrangheta.
Se formos inclinados a reflexões filosóficas não podemos deixar de detectar uma coerência pedagógica irrepreensível. Igualmente exemplar é o testemunho da evolução da personalidade mafiosa: do aluno que ameaça os colegas ao político de carreira. É como aquela imagem clássica da evolução do hominídeo violento para o homem superior. Sendo que neste caso o percurso é o inverso.

sábado, 18 de janeiro de 2014

 
lit.
 
Estava há cinquenta e dois minutos à espera quando o mandaram entrar. Sentou-se do outro lado da secretária de frente para o médico, um indivíduo calvo e gordinho de óculos de massa e olhos claros. O contraste físico entre os dois homens era antropologicamente notável.
Estamos melhor?
Já me dói menos o corpo, sim.
Os comprimidos, às horas certas?
Sim.
E já começou a fisioterapia?
Ainda não, doutor.
Nem fazia tenção de a começar; não era a primeira vez que ficava amassado num combate e costumava lamber as feridas sozinho.
Diga-me o resultado da TAC assim que o tiver e evite esforços físicos nas próximas semanas. Os treinos estão fora de questão, claro.
...
Tem posto as bolsas de frio nos braços e nas coxas?
Não doutor, não encontrei para o meu número.
Então improvise qualquer coisa. Duas horas de frio por dia no mínimo, já sabe.
Oscultou-o, mediu-lhe a pressão arterial, rabiscou a ficha clínica e dispensou-o.
Quando saiu para a rua fazia frio e estava escuro. Perdera muito mais tempo do que contava e ia atrasar-se para o jantar. Talvez a mulher não tivesse feito nada de muito especial ou que exigisse pontualidade. Não gostava de se atrasar e menos ainda de a desiludir.
Decidiu atalhar pelas traseiras da loja de móveis, virar à esquerda na papelaria e contornar o antigo pavilhão de ginástica; depois atravessar o terreno baldio da Câmara, vedado há anos, e o bairro antigo. Nada de extraordinário, apenas bom senso e sentido de orientação.
Galgou numa passada ampla um muro baixo e sentiu a coxa latejar. Desta vez fora demasiado longe. A mulher alertara-o nos últimos tempos para o peso dos anos e das mazelas, numa apreensão quase maternal. Sabia que não podia abrandar; admitir que talvez fosse altura de pendurar as luvas significava abdicar de bem mais do que um desporto. Não era uma desistência para a qual estivesse preparado. Mas talvez a sugestão do gelo não fosse descabida...
Estranhou o som abafado que ouviu para lá das portas de metal do antigo ginásio, por isso abrandou o passo e encostou o ouvido à chapa. O ruído vinha de longe e as trancas estavam abertas; antes de pensar já estava mergulhado no escuro do pavilhão.
Percebeu duas vozes para lá dum corredor estreito. O homem rosnava qualquer coisa indecifrável e a mulher choramingava e gemia entre soluços. Talvez pelo treino de anos, talvez pela cena que previa, talvez por outra coisa qualquer, ficou tenso e alerta. Cruzou o corredor num passo ligeiro, desceu a escada de ferro para a cave sem qualquer som e parou atrás duma fila de cacifos. O homem mantinha um pé em cima da mulher, caída no chão seminua e ensanguentada. Porque estava de costas, não o viu e manteve-lhe a lanterna apontada. Porque ela estava de bruços, virada para os cacifos, encontrou-o na sombra e olhou-o com desespero. Nunca ninguém lhe parecera tão pequeno.
A primeira fractura foi nas costelas. Na surpresa do ataque a lanterna caiu ao chão e a única luz passou a ser a que coava pela janela junto ao tecto vinda dum candeeiro da rua. Enquanto o homem cambaleava a mulher reuniu forças e fugiu, oferecendo àquele salvador impossível uns olhos enormes. Atirou o homem ao chão com uma joelhada no estômago, prendou-o entre as coxas e começou a sová-lo.
Não sabe quanto tempo aquilo durou. Parou quando as mãos, habituadas a maus tratos, deixaram de dar acordo. Não se impressionava facilmente mas o que viu no chão assustou-o. Não ia ser fácil identificar o corpo.
O mesmo ímpeto que o conduziu àquela sala levou-o de novo para a rua. Não era bem ele, movia-se numa semi-consciência atípica. Deixou o casaco num contentor de lixo à saída do ginásio e o caminho até casa foi como um daqueles sonhos que confundimos com a realidade.
A mulher tinha grelhado salmão e pimentos e recebeu-o com apreensão; o cheiro a churrasco puxou-o ligeiramente do torpor.
Está tudo bem, homem?
Sorriu-lhe com dificuldade e desculpou-se para a casa de banho. Acendeu um cigarro às escuras, a sentir o corpo a doer de novo, e ficou à espera de qualquer coisa. Do quê não sabia.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014


O Inferno existe e é um local de sofrimento inimaginável, tal como apregoam as Escrituras. A sentença para as almas pecadoras é uma eternidade passada a enfiar edredons de casal nas respectivas capas sem qualquer tipo de ajuda.

domingo, 5 de janeiro de 2014


Há algo anacrónico e lúgubre num espectáculo de circo. O fascínio pelo domínio duma arte física continue tão vivo em nós como nos públicos vitorianos, mas o que era novidade no século dezanove dificilmente o é em dois mil e catorze. Os circos deixaram de ser há muito os únicos palcos onde podemos admirar piruetas arriscadas e senhoras de maillot - basta uma ligação à internet.
O mais sinistro são mesmo os palhaços. Quando era miúdo havia sempre um palhaço triste e um palhaço contente. Hoje em dia acho-os todos tristes. Porque o humor é humilde e estafado; porque os desgraçados, muitos com idade de avô, passam o dia maquilhados com tintas cancerígenas; porque a maior parte vive numa pobreza miserável anestesiada à custa de bebida.
Há nestes espectáculos toda uma cultura de desrespeito que me faz espécie. Pôr um homem de meia idade a repetir palermices de cara pintada, ou um ginasta dorido a replicar os mesmos pinotes vezes sem conta, ou a partenaire dum mágico a surpreender-se com o truque de sempre é rebaixá-los. Não consigo deixar de pensar que de cada vez que repetem a rotina vendem um bocado da alma. Não é coisa que me apeteça aplaudir.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014


Quantos de nós teríamos atingido a idade actual tivéssemos nascido há duzentos anos?

domingo, 15 de dezembro de 2013


Imagine o leitor uma sociedade avançada que criou uma tecnologia para registo de imagens pouco dispendiosa, simples e portátil. Através de um sistema de lentes e diafragma estes aparelhos regulam a passagem de luz para um sensor eléctrico, onde é convertida em informação binária. Esta informação  pode ser comodamente transferida para sofisticadas máquinas descodificadoras que surgiram décadas antes e que vêm gozando de uma evolução exponencial. Interagem com o utilizador através de um ecrã e de um teclado, estreando constantemente meios de interacção mais directos. Permitem fazer quase tudo; para além de manipularem e guardarem as imagens digitais produzem e editam texto, vídeo e som.
Esta sociedade, industriosa que é, desenvolveu uma teia de telecomunicação mundial que permeia milhões destas máquinas com imensuráveis volumes de informação. Para além de constituir uma poderosa ferramenta de trabalho é um extraordinário veículo de cultura, ciência e educação. Também disponibiliza imagens de pipis, o que lhe cimenta definitivamente a popularidade. Foi nesta vasta teia que surgiram recentemente redes de natureza social, onde os participantes registam episódios do seu dia a dia.
Numa observação superficial tudo é belo. As imagens são, afinal, informação preciosa que pode chegar rápida e comodamente a qualquer lado. Mas algo invisível tem vindo a instalar-se entre os homens e mulheres desta terra.
Começou na ideia, compreensivelmente sedutora, da eternidade: captar o momento presente prendendo-o em pixels, armazenando-o numa directoria, mantendo-o vivo e sempre à mão. De forma simples e barata. Na consciência dolorosa da finitude humana representou um conforto até então inexistente.
Não se esperava certamente a perda de controlo que se seguiu. Do apontamento parcimonioso das férias, celebrações e acontecimentos relevantes esta sociedade passou para o registo acéfalo de tudo o que há de mais banal e desinteressante. O cuidado na composição da imagem (impressão digital do artista) desapareceu e a quantidade substituiu a qualidade. Ficaram reféns as memórias sob forma de zeros e uns e divorciou-se o homem do acontecimento. O que se perdeu foi a tríade definidora da natureza humana: a experiência tornou-se desatenta, a análise inexistente e a memória remota, armazenada algures num conjunto de bits. As mentes tornaram-se saltitantes e caóticas - afinal para reter deixou de ser necessária atenção - e a reflexão cuidada e profunda, quando sobrevive, foi relegada para os raros locais apartados da tecnologia, normalmente a banheira e a sanita.
No meio deste descontrolo colectivo encontraram terreno particularmente fértil as almas mais mesquinhas. Do palanque das redes sociais dedicaram-se à construção de mundos perfeitos onde o extraordinário é apresentado como ordinário e o gesto estudado como momento espontâneo.  Vivem o sonho molhado de qualquer narcísico: o reforço da sua superioridade (vivem  - e publicam - experiências que não estão ao alcance dos outros) e a perpetuação da sua vaidade (uma boa parte do tempo é passada a envernizar estes mundos falsos).
Desculpe-me o leitor a distopia, felizmente umbrática, mas há dias em que me dá para aqui.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013


Querida família,
estou quase com nove meses e queria dizer-vos que descobri um novo mundo. Agora já sou crescido e por isso deixei-me de mamas... A minha mãe deu-me um leite diferente de que não gostei nada mas agora já gosto. Como muito bem a sopa, porque eles dizem que faz bem e me faz crescer. Já experimentei coisas novas e até já me deram pão, que eu aproveito para massajar os dentes.
Mas o mais giro é que já me sento sozinho e quando apanho os meus pais distraídos gatinho pela casa toda. Comecei a gatinhar de marcha atrás mas agora já sei ir para a frente. A minha mãe está sempre a insistir para eu bater palmas, porque uma menina filha de uma amiga que tem menos dois meses que eu já bate palminhas, mas eu vou bater palmas quando eu quiser.
Estou cheio de vontade de falar com os meus pais, mas só sai uma chuva de cuspe...
Ah e continuo a adorar a hora do banho com o meu pai.
Muitos beijnhos e abraços.
Santiago
 
 
 
Querido Santiago,
Assim mesmo é que é, já é altura de deixares as mamas. Não penses é que é viagem sem regresso, que garanto-te que vais voltar a elas um dia mais tarde. Já a sopinha é a base duma dieta equilibrada - o que é argumento irrefutável, estejas na segunda classe com a roda dos alimentos ou em bioquímica a fixar compostos. Além do mais é uma maravilha para quando um gajo vive sozinho, ou como no meu caso com dois mamíferos cuja noção de haute-cuisine é 'descongelar uma pizza'.
Pumba a afinar essas vias córtico-medulares desde cachopo! E aprender a andar para a frente só depois de dominada a marcha atrás sempre é melhor agora do que daqui a dezoito anos com um instrutor de condução a urinar-se em pânico ao teu lado. Não é tem tanta piada, claro.
Se querem ver-te a fazer macacadas cobra bilhete. Não te deixes enrolar pá.
Quanto à chuva de cuspe guarda-a no repertório que quando estiveres a ser multado daqui a uns anos vai ser-te útil no diálogo com o senhor agente da autoridade.
Ah e no futuro vais achar muito mais piada à hora do banho noutras companhias... holandesas, fica a sugestão.
Grande abraço,
teu primo J.

sábado, 23 de novembro de 2013


Diz que hoje aconteceu uma coisa gira. Cheia de moral e assim. Aposto que o La Fontaine já fabulou sobre isto.
Ia eu no calhambeque, todo cumpridor do código da estrada, quando tive de parar num sinal vermelho. Aproveitei a oportunidade para oscular repenicadamente a minha senhora. O que eu fui fazer... O gesto enfureceu o senhor que seguia atrás de mim. Cegou-o de fúria. A partir desse instante passou a ser um homem numa missão. Como a zona era antiga, por isso de ruas estreitas e em mau estado, não lhe restou outra opção senão seguir-me até ter espaço para me tomar a dianteira. Fê-lo à distância - não regulamentar, parece-me - de sete centímetros. Seguíamos em alegre comboio, o senhor, eu e os quatro veículos à minha frente, quando a faixa alargou finalmente para uma espécie de berma; foi então que encontrou a oportunidade tão esperada: acelerou ruidosamente e encaixou-se entre o meu carro e a carrinha de caixa aberta que seguia à minha frente. Olhou para o retrovisor com um sorriso de triunfo e deu um toque no travão, brincalhão que era. Nesse instante a carrinha passou num buraco, soltou o ferrolho da porta da caixa e descarregou-lhe num divertido estrondo duas bilhas de gás no capot.
Estive para lhe perguntar se precisava de ajuda mas a duzentos metros havia outro semáforo e a minha senhora deve ser osculada de cinco em cinco minutos. Caso contrário falece um pinguim, e eu gosto à brava de pinguins.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

 
A chegada do inverno acorda os mais variados humores. Há quem lamente o fim dos dias longos de calor, há quem antecipe o Natal e os reencontros da época, há quem se anime com o frio e as oportunidades que este traz, quer de intimidade quentinha quer de criatividade sartorial.
Para mim, a chegada do inverno significa o regresso dos anúncios ao Ferrero Rocher. E o regresso dos anúncios ao Ferrero Rocher aquece-me a alma. O requinte muito anos oitenta traz-me de novo as férias de Natal da escola primária, as manhãs passadas dentro do saco-cama na brincadeira e os almoços em casa da avó com cheirinho a advento. A graciosidade da senhora do Rolls Royce é a saborosa consciência dum mundo de prosperidade e dolce vita e a lealdade incondicional do Ambrósio conforta como a companhia de um velho amigo.
Num mundo imprevisível, um café com um Ferrero Rocher no conforto duma casa inundada pelo sol de inverno faz maravilhas.

terça-feira, 12 de novembro de 2013


lit.

Meteu-se no elevador absorto, o edifício que descia a hipnotizá-lo. Ou era ele que subia. A julgar pelo ânimo era o mundo que passava, ele quieto. Parede, porta, parede, porta, parede, porta, parede, a porta.
Atravessou com fome o corredor até ao número 43, deixou a máscara e entrou no silêncio da casa.
Fixou-se no reflexo à janela enquanto fazia o jantar, duas latas de atum à espera num prato enquanto o ovo cozia. Mas não encontrou um homem. Não um, uno; um como em três terços, oito oitavos, treze treze avos.
Jantou ausente, levantou a mesa numa coreografia maquinal e lavou a louça em crescente astenia, na desconstrução violenta de quem se percebe fracção.
Não se recorda se lavou os dentes, nem se tomou os comprimidos.
Mas lembra-se de adormecer na certeza de que viver por viver tivesse sido em verdade consigo. Pudesse a brevidade do Acto ter encorajado urgência em ser autêntico. Talvez então não se tivesse vendido até não se reconhecer mais num reflexo. Talvez hoje fosse um, inteiro. Talvez.
Talvez o arrependimento fosse, ainda a tempo, o primeiro passo noutra direcção.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013


Muita coisa fascinante pode acontecer num provador de roupa. Estava entretido num cubículo espelhado a provar umas luvas e um gorro (sempre que tenho a oportunidade de me pôr todo nu da cintura para baixo aproveito-a) quando me sobressaltou a invasão do cubículo contíguo por uma horda de adolescentes. Pela comoção imaginei cerca de vinte, percebi depois que eram quatro. Entregaram-se a um diálogo vazio acerca de coisa nenhuma. Subscrevendo aquele contrato social em que nos subvalorizamos só para que nos contradigam, a adolescente mais estridente queixava-se de como determinadas calças número trinta e oito empacotavam mal a sua gordura horrorosa; as outras garantiam-lhe que tinha um corpo excelente, tomaram elas. Voltou à pesca de elogios mais duas vezes, com sucesso. À terceira investida a única que ainda não tinha falado diz-lhe
Ó Sara, pensa na quantidade de gente ainda mais gorda e feia que tu - é apenas uma questão de perspectiva.
A seguir a um s...s...sim hesitante, quase afónico, devem ter decidido que afinal não precisavam de roupa, porque sairam rapidamente e em silêncio.
Não sei o que é mais notável neste extraordinário episódio, se a fleuma com que a moça estraçalha a amiga se a esperança que nos traz gente desta que desde pequena se recusa a compactuar com personalidades histriónicas.
Recordou-me um momento de semelhante gáudio que vivi aqui há uns anos. Nas auto avaliações de final de período uma colega adepta do mesmo tipo de pesca subavaliou-se desavergonhadamente. Os professores reagiam normalmente com espanto, convencendo-a do seu valor e mestria, ela mostrava-se desconfortável com a honra mas acabava por aceitar a nota e andávamos nesta farsa em sete disciplinas três vezes por ano. Não nesta ocasião. Ao avaliar-se em quinze valores, quando merecia dezassete, a professora registou calmamente a nota no livro de ponto e seguiu para o nome seguinte. A absoluta indiferença aos joguinhos de aprovação foi um momento épico. E ainda beneficiámos a longo prazo do facto da pequena ter parado com as palermices e passado a auto avaliar-se como deve ser.

domingo, 3 de novembro de 2013

quinta-feira, 31 de outubro de 2013


lit.

Não eram ainda sete horas quando estacionou a carrinha e já a noite se instalava. Havia duas semanas que não se dava pelo sol e o ar húmido entrava agreste em todo o lado, o que tornava difícil manter o ânimo, especialmente para quem andava boa parte do dia na rua.
Foi de espírito pesado que desligou o motor e ficou à espera, de mãos debaixo das coxas. Pesava-lhe o cansaço de uma semana de trabalho nem sempre estimulante e quase sempre mal pago. Se o horário relativamente fixo lhe trazia uma previsibilidade bem vinda estes casos especiais não tinham propriamente hora marcada e costumavam intrometer-se-lhe na noite. Numa sexta feira de chuva a comissão era parca compensação pelo adiar do jantar.
Não teve de esperar muito pela chegada do chefe e do colega. O primeiro tratava-o com um paternalismo desconfortável; gostava de lhe lembrar, nem sempre com subtileza, que a sua contratação fora um favor de grande generosidade em honra do pai e que nos tempos que correm uma oportunidade daquelas era um privilégio. O segundo, com quem fazia a maior parte do trabalho de terreno, era do tipo reservado, de tal maneira neutro que nunca sabia que assunto puxar quando estavam juntos. A maioria das vezes trabalhavam em silêncio, o que não o desagradava propriamente.
Esperaram que o portão de ferro abrisse e ouviu o areão estalar debaixo dos pneus. A consciência daquela riqueza alheia não estava propriamente a animá-lo. Foi a sobrinha da falecida que os recebeu, uma mulher na casa dos setenta, e que os conduziu ao salão e ao espólio: os quadros em cavaletes dispostos em semi-círculo e as esculturas em cima de duas mesas grandes ao centro.
Tivemos pouco tempo de preparação, algumas coisas ainda estão como a minha tia as deixou. Mas penso que assim serve...?
Perfeitamente. A generosidade da sua tia deixa-nos a todos muito felizes.
Uma herança daquelas representava um acréscimo de valor considerável à actual colecção e não passaria certamente despercebido aos proprietários do museu que fora o chefe a conseguir aquele acordo. Havia razão para estar feliz.
Enquanto este e o colega faziam uma análise rápida aos quadros deteve-se à entrada da sala. A foto duma mulher de alguma idade, alta e magra, de sorriso aberto e olhos claros tinha lugar de destaque por cima do piano. O tecto branco, alto, trabalhado nos cantos num relevo complexo continuava a sensação de luz das paredes claras. A temática roxa e bege da decoração e o cheiro a madeira tratada faziam do espaço um reduto feminino; a preferência pelo metal escovado, nas molduras, nos candeeiros e nos vasos rematava uma experiência estética anacrónica mas curiosamente cativante.
Enquanto esperamos a chegada do advogado, o Dr. Gouveia, posso mostrar-vos a escultura que não está incluída no testamento. Mantivemo-la no atelier, por causa do peso. Eu levo-os até lá - temos é de levar guarda-chuva...
Um corredor comprido, onde abriam vários quartos e salas, dava acesso ao jardim. Atravessaram-no em passo rápido e subiram os três degraus de acesso ao atelier, uma construção de porta e paredes de vidro temperado, com um alpendre largo ladeado por vasos de pedra.
Já começámos a empacotar as coisas, receio que esteja um bocadinho atravancado. Aproveito e dou um salto à cozinha, deixo-os à vontade. Depois podemos esperar na sala com um chá e umas bolachinhas.
Com a permissão do chefe acendeu um cigarro e ficou à porta; viu-o contornar com o colega um conjunto de embrulhos e malas dispostos em desarmonia. O ambiente caótico de fim de festa contrastava com a serenidade e a elegância do resto da casa. Ao lado da porta alinhavam-se cinco caixas identificadas como Pintura. Reparou numa mão cheia de fotografias antigas, no cimo da primeira, amarelecidas pelos anos. A fotografia do topo prendeu-lhe a atenção por reconhecer de imediato o recorte do Matterhorn.  No meio de um grupo de oito pessoas, sentada ao comando de uma moto com sidecar, olhava em frente com sorriso aberto uma mulher jovem e magra, de olhos claros; o homem agachado no sidecar ao seu lado fitava-a com um sorriso gaiato. O colega chamara entretanto a atenção do chefe para um gira-discos ao lado da escultura, com um vinil ainda assente no prato. O chefe ligou-o à tomada e depois de verificar a agulha baixou o braço. À porta do atelier, sentiu-se inesperadamente leve. Talvez pela promessa de um chá quente, talvez pelo piano de Thelonious Monk, talvez por outra coisa qualquer. Fumou o resto do cigarro na confortável sensação de que a noite de trabalho ia custar menos do que prometera.

sábado, 26 de outubro de 2013

Opus 23

Num bloqueio turvo, semblante tolinho,
Permaneces sentada com as calças no chão
Pois sem papel higiénico à mão
Como havias tu de limpar o rabinho?

Dez maços de lenços na prateleira em frente
Dariam resposta adequada, pois é -
Não fosse um simples exercício à mente
Atirar-te bem longe para fora de pé.

Num primeiro embate com o teu nevoeiro
Pensamos ser só humor pouco usual
Mas logo se expõe um terreno avesseiro
Tão estéril de vida que não parece real.

Na apreensão típica dos confusos
Destilas conflito por todo o lado;
Sozinha retrais-te à enleada inacção
Naquele fácies bem toleirão
Tão próprio de alguns tipos de gado.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013


A Estética tem sido importunada numa base diária e ninguém se levanta em sua defesa. O culpado é, naturalmente, o actual fetiche masculino com relógios de punho colossais. Parece nem interessar se custam trezentos euros ou trinta mil. Entendo que o homem moderno, tendo trocado a caça e a defesa pelo tablet 4G e o macchiato de avelã, procure balançar esta mariquice com símbolos viris. E nem vou encetar considerações freudianas acerca desta fixação compensatória com o tamanho. Mas um relógio da dimensão dum pires não traz à mente poder ou força, traz à mente o Batatinha. Trinta e seis milímetros de caixa chegam, a sério.

sábado, 19 de outubro de 2013


Foi durante a cavaqueira pós prandial com a minha senhora, enquanto entretíamos questões menores, que se consubstanciou nos nossos espíritos incrédulos algo de extraordinário relevo. Um quesito que sumula, caro leitor, boa parte das grandes questões com que alguma vez se debateu; que levanta, de imediato, outras tantas para reflexão futura. Não há que temer o assombro duma grande ideia ou hesitar no elogio em boca própria: trata-se, admitamo-lo, da síntese das considerações ocidentais dos últimos quinhentos anos. Se não está sentado sente-se.
Aqui vai: porque é que vender o pipi* na sétima arte carrega maior estigma do que vender a ética no dia a dia?
Experimente dizer em qualquer fórum social que é actor na indústria pornográfica. Analise a recepção. Garantidamente pouco empática, seja homem ou mulher. Olhá-lo-ão com repulsa, desdém ou inconfessa predação. Tudo pouco agradável. Experimente agora apresentar-se como economista teórico responsável por uma coluna de opinião. Omita, para o efeito, a quantidade incalculável de vezes em que a realidade, essa marota, desdisse o autismo da sua análise "científica". Ou refira a sua paixão pelo Direito e a carreira que construiu na advocacia. Omita, para o efeito, a chusma de degenerados sem qualquer esperança de redenção que defendeu ao longo dos anos. Ou partilhe o seu trajecto político de luta desde as baixas camadas partidárias até à posição de influência que agora detém. Omita, para o efeito, o mar de demagogia em que vive desde que se lembra de ser gente. Ou recorde as férias em que conheceu o seu cônjuge e o projecto a dois que daí resultou. Omita, para o efeito, que a estima que lhe tem é toda na medida da sua conta bancária. Encontrará na plateia reacções díspares, certamente, mas duvido que o brindem com o repúdio reservado aos que passam os dias a suar de gatas. E no entanto não escasseiam virtudes a esta desqualificada carreira. Senão debrucemo-nos. O objecto artístico, o sexo, é algo que todos são capazes de apreciar - grande parte da população investe nele uma boa parcela das suas vidas e os que não o fazem dão certamente espectadores entusiastas. É uma carreira que pugna pela boa saúde: o praticante tem de manter uma forma física invejável, quer no tónus quer na estamina, e faz mais despistes médicos do que qualquer outra alma, mesmo a que pratica tanto ou mais. E é uma escolha sensata não só em termos financeiros - vive melhor do que a média da população - como em termos humanos - conhece constantemente gente nova.
Urge uma resposta capaz de interpretar a razão de ser desta injustiça. Tenho pronta uma bonita recompensa: um conjunto de três VHS de muito bom cinema. Não precisam de recear o estigma: o rótulo diz "Jogos Olímpicos Sidney - atletismo".

*quem diz pipi diz naturalmente pilinha.